Quase 40 carurus: baiana se tornou devota de São Cosme e Damião após ganhar imagem dos santos e ter pedido atendido em três dias
26/09/2026
(Foto: Reprodução) Baiana virou devota de São Cosme e Damião após ter pedido atendido
Há quase 40 anos, quem chega na casa da professora baiana Mariza Bonfim Ribeiro, no dia 26 de setembro, encontra uma festa em homenagem a São Cosme e Damião. A devoção aos santos gêmeos começou em 1987 com um caruru, se transformou em caridade e só fez crescer ao longo dos anos.
"Ganhei a imagem de uma amiga, que disse que eu era muito alegre, tinha tudo a ver com Cosme e Damião. Eu estava grávida, fiz um pedido e ele foi atendido em três dias", relembrou.
Para agradecer aos santos gêmeos, Mariza deu seu primeiro caruru para amigos e não parou mais: nos outros anos, passou a oferecer a refeição para pessoas em situação de vulnerabilidade social. A festa, que começou na sala de casa, em Abrantes, na Região Metropolitana de Salvador (RMS), cresceu tanto que precisou migrar para o salão de festas do condomínio.
🕯️ Na Bahia, o caruru de São Cosme e Damião é reconhecido como patrimônio imaterial do estado. Em 26 de setembro, a Igreja Católica celebra os santos gêmeos. Já nas religiões de matriz-africana, os Ibejis, orixás gêmeos que representam as crianças, são celebrados em 27 de setembro. Tal associação é fruto do sincretismo religioso, que reúne elementos de diferentes religiões.
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O caruru de Mariza coleciona uma porção de histórias: ela já levou cantores gêmeos para se apresentarem na festa e, no ano em que decidiu fazer um caruru menor, só para os "mais chegados", teve a casa invadida por ladrões e vários eletrodomésticos foram furtados. "Brinque com Cosme e Damião", disse, ao comentar o episódio.
Mariza reúne amigos e doações em caruru para São Cosme e Damião
Arquivo pessoal
Para ela, os santos gêmeos se fazem presentes em várias áreas de sua vida. Na alegria do dia a dia; no neto de um ano e seis meses, que é considerado um milagre para a medicina; e nas boas lembranças com o filho mais velho, o produtor musical Henrique Bonfim, que morreu em um acidente de avião em 2021, junto com a cantora Marília Mendonça.
"Depois da partida do meu filho, o caruru ganhou mais um significado: acolhimento. Henrique era intenso, viveu muito em pouco tempo e me mostrou como ser amigo. O que Deus quer é isso: que a gente seja feliz, acolhedor e generoso".
Confira fotos dos carurus de Mariza ao longo dos anos
Neste ano, Mariza contou que vai distribuir as quentinhas pela manhã e depois, na hora do almoço, se encontrar com seus convidados para o caruru. Todos precisam levar doações de alimentos não perecíveis, como arroz e feijão, pois a professora faz as doações dos itens em lares de idosos, centros espíritas e outras organizações sem fins lucrativos.
Tradição que perpassa as religiões
O caruru começou a ser oferecido na Bahia no período colonial. A refeição era doada nas ruas, geralmente como pagamento de promessas alcançadas.
Depois, famílias negras escravizadas, especialmente em Salvador, passaram a preparar o caruru não só dentro dos terreiros, mas também em suas casas, como forma de agradecimento. Essa tradição persiste até hoje.
Oferendas de Caruru de São Cosme e Damião diante dos santos
Táta Ricardo
Feito com quiabo cortado, camarão seco e azeite de dendê, entre outros ingredientes, o caruru costuma ser servido primeiro às crianças — por isso, a tradição é também conhecida como "caruru de sete meninos".
O gesto simboliza a ligação direta do caruru com a infância, já que os santos gêmeos são lembrados como protetores das crianças e os ibejis são ligados à alegria, brincadeira e fertilidade. Depois que as crianças comem, os adultos são convidados a se servir.
Ainda segundo o costume, quem encontrar um quiabo inteiro no prato deve oferecer um caruru completo no próximo ano.
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