Pais e padrastos são os principais autores de estupros de vulnerável no RJ, aponta ISP

  • 02/08/2026
(Foto: Reprodução)
Mais da metade das vítimas de estupro no Brasil tem até 14 anos Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) do Rio indicam que pais e padrastos são os principais autores de estupro de vítimas vulneráveis, abaixo dos 14 anos. Levantamento feito pelo g1 a partir de estatísticas do primeiro trimestre de 2026 indicam que, entre os casos registrados com autores conhecidos, padrastos aparecem como responsáveis por estupros de vulnerável em 148 casos. Meninas e adolescentes foram vítimas em 99 registros. Pais, como no caso da filha de Q, vítima do crime em fevereiro deste ano, apareceram em 118 registros. Em 93 deles, as vítimas eram meninas e jovens mulheres com menos de 14 anos. "No caso dos estupros de vulnerável, 38,6%dos autores eram pais, padrastos ou parentes das vítimas (em 2025). Ou seja, trata-se de um crime que, frequentemente, ocorre em contextos de proximidade e confiança, o que aumenta a vulnerabilidade de crianças e adolescentes ", explica Bárbara Caballero, diretora-presidente do ISP. Mãe relata que filha de 3 anos denunciou estupro: 'O papai mexeu' 📱Baixe o app do g1 para ver notícias do RJ em tempo real e de graça Delegacia da Criança e do Adolescente Vítima (Dcav) no Rio Henrique Coelho/G1 Para a delegada Maria Luiza Machado, titular da Delegacia da Criança e Adolescente Vítima (Dcav), existe uma cultura de atração por menores de idade e crianças: “As pessoas de fato se sentem atraídas por crianças. Então, você ter essa consciência faz com que você passe a tomar determinadas condutas e determinados cuidados, porque a gente sempre acha que não vai acontecer com a gente, que o abusador tem um rosto, tem um jeito, e não tem", afirmou. A delegada e a diretora-presidente do ISP ressaltaram o fato que grande parte dos crimes acontece no ambiente doméstico, aproveitando a vulnerabilidade da vítima: "São pessoas próximas, pessoas que a gente não acredita. Então, acho que essa essa facilidade, de certa forma, de acesso à vítima faz com que esses números sejam ainda maiores.", diz Maria Luiza Machado. Segundo a delegada, é fundamental abrir um canal de diálogo com crianças e adolescentes e prestar atenção em qualquer alteração de comportamento, para que um possível crime seja levado às autoridades: "Até mesmo porque, caso você saiba de algum tipo de violência que aconteceu contra uma criança e não reporte isso, isso é um crime, o artigo 26 da Lei Maria da Penha", disse a delegada. Outras estatísticas O levantamento feito pelo g1 indica que foram registrados 1.556 estupros entre janeiro e março deste mano. Desse total, 875 vítimas tinham menos de 14 anos de idade, e 702 (52% do total) são meninas e adolescentes. Dados do Dossiê Mulher indicam ainda que meninas de 0 a 11 representaram 49% das vítimas de estupros de vulnerável em 2025. Outras 31,8% eram de adolescentes entre 12 e 17 anos de idade. Somadas, as faixas etárias até 17 anos representam mais de 80% das vítimas. O mesmo dossiê indica que há uma concentração de registros de estupros de vulnerável entre meia-noite e 8h. Para a diretora-presidente do ISP, Bárbara Caballero, os horários apontam que muitas vítimas estão em casa ou iniciando sua rotina diária. "Essa distribuição é compatível com uma dinâmica em que a violência ocorre, muitas vezes, em ambientes privados e é praticada por pessoas conhecidas da vítima, frequentemente no contexto familiar ou em círculos de confiança." Relato de criança de 3 anos Em fevereiro de 2026, Q., mãe de uma menina de apenas 3 de anos, teve que ir até a Dcav para registrar um caso de estupro de vulnerável. Ela trabalhava como faxineira e está separada do pai de sua filha. Porém, precisou deixar a criança na casa do pai durante um final de semana. Na segunda-feira seguinte, Q. disse que, ao trocar a fralda, percebeu que a região íntima da filha estava avermelhada. Ao perguntar o que tinha acontecido, a resposta foi devastadora: "Ela falou com uma clareza assim: 'O papai mexeu'. Ele mexeu, acho assim, ele fez isso e ela foi explicando, dando detalhes. Para uma criança que só tem 3 anos, os detalhes que ela dava eram muito claros, né? Não tinha como ser coisa da imaginação dela." A delegada Maria Luiza Machado, que investiga o caso, não deu detalhes sobre o inquérito. No entanto, ela explicou que uma criança de 3 anos não poderia prestar depoimento a respeito do abuso sofrido. "Com 3 anos a gente vê que essa criança ainda não tem uma uma realidade espaço temporal muito bem definida, por conta de questões, de desenvolvimento cerebral. Então, além de ser extremamente prejudicial àquela criança, não existe nenhuma definição científica de que isso seria proveitoso", explicou. Infográfico Kayan Albertin/Arte g1 Quem é vulnerável em crimes sexuais São considerados vulneráveis, nos casos de crimes sexuais, toda e qualquer criança abaixo dos 14 anos de idade. Também podem ser considerados vulneráveis pessoas que não têm o discernimento necessário para a prática do ato, devido a uma enfermidade ou condição psíquica, ou que por algum motivo não possam se defender. “O crime de estupro de vulnerável se configura com a conjunção carnal ou prática de ato libidinoso com menor de 14 anos, sendo irrelevante eventual consentimento da vítima para a prática do ato, sua experiência sexual anterior ou existência de relacionamento amoroso com o agente", diz o texto da Súmula 593 do Superior Tribunal de Justiça, publicado em 2017. Em março, o presidente Lula sancionou uma lei que reforça que a condição de vulnerabilidade da vítima é absoluta. No entanto, decisões recentes do próprio STJ e de tribunais estaduais alegaram casos "excepcionais" para absolver réus pelo crime de estupro de vulnerável. O termo é conhecido juridicamente como "distinguishing". O que é 'distinguishing' e quando pode ser aplicado? LEIA TAMBÉM: Pai é preso suspeito de estuprar a própria filha e obrigá-la a tomar anticoncepcional Polícia prende secretário de habitação de Petrópolis por estupro de vulnerável Sargento da PM é preso por estupro de vulnerável Capitão Hunter é indiciado por estupro de vulnerável e produção de material de abuso sexual Professor de direito é preso por estupro de vulnerável; polícia diz que ele atraía vítimas com lanche Procurada, a Secretaria de Estado da Mulher e de Políticas Inclusivas (SEMPI-RJ) afirmou que mantém uma política "permanente e integrada" de enfrentamento à violência contra a mulher. A superintendente de Enfrentamento à Violência contra a Mulher da Secretaria de Estado da Mulher e de Políticas Inclusivas, Claudia Araújo, afirmou que enfrentar a violência contra a mulher é garantir direitos: "Nosso compromisso é fortalecer uma rede de atendimento cada vez mais integrada, humanizada e acessível, para que todas as mulheres, especialmente aquelas em situação de maior vulnerabilidade, encontrem apoio para romper o ciclo da violência e reconstruir suas vidas com dignidade e autonomia", pontuou. 🟩O g1 Rio está no GloboPop, o novo aplicativo de vídeos curtos verticais da Globo, disponível gratuitamente no seu celular. Lá no app, você pode seguir o palco do g1 Rio para não perder nenhum episódio. Baixe o GloboPop.

FONTE: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2026/08/02/autores-de-estupros-vulneravel-isp.ghtml


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