Estudo com brasileiro à frente faz homem sobreviver com rim de porco por 271 dias e aponta novo caminho para os transplantes
05/09/2026
(Foto: Reprodução) Paciente bateu recorde de vida com xenotransplante
Divulgação
Um paciente em estágio terminal de doença renal sobreviveu mais de 271 dias com um rim de porco sem precisar de diálise – um tempo recorde. O caso faz parte da pesquisa do brasileiro Leonardo Riella, professor na Harvard Medical School, e coloca a humanidade mais perto de sobreviver com órgãos de animais. Para especialistas, esse é um caminho de esperança para as milhares de pessoas na fila por um transplante.
Leonardo e sua equipe conseguiram que um paciente terminal de insuficiência renal voltasse a ter uma vida normal por nove meses. Antes do procedimento, ele dependia de sessões frequentes de diálise, andava de cadeira de rodas e enfrentava diversas restrições no dia a dia.
Há décadas, médicos e pesquisadores tentam fazer funcionar o transplante de animais em humanos. A técnica é vista como uma possível solução à escassez de doadores, que deixa milhares de pessoas à espera e submetidas a uma realidade que rouba a qualidade de vida.
Para se ter uma dimensão do problema, o transplante renal é um dos mais realizados no país. Isso porque de um doador falecido, por exemplo, é possível atender dois pacientes. Além da possibilidade entre pacientes vivos. Ainda assim, hoje, 45 mil pessoas estão na fila, segundo dados do Ministério da Saúde.
Tim comemora após xenotransplante
Kate Flock/Massachusetts General Hospital
Para especialistas, a pesquisa marca um dos passos mais revolucionários já dados nessa direção. O avanço se deve, em grande parte, à edição genética do porco doador: modificações que eliminam os principais alvos de rejeição do corpo humano e reduzem drasticamente a chance de o organismo atacar o órgão transplantado. (Entenda mais abaixo)
De acordo com Riella, a expectativa é de que o xenotransplante seja uma realidade para pacientes nos próximos cinco anos, como ponte para o transplante humano. A ideia do médico e pesquisador é que seja um processo por etapas, com a ambição, a longo prazo, de que o paciente não precise mais de um transplante humano.
Um feito inédito na medicina
Tim Andrews, 66 anos, gostava de acampar antes de descobrir a doença renal. Em um ano e meio de diálise, o quadro debilitou tanto o paciente que ele passou a se locomover de cadeira de rodas — uma realidade completamente oposta à vida ativa que tinha antes da doença.
Com esse quadro, ele se tornou candidato ao xenotransplante e recebeu o órgão de porco em janeiro de 2025.
"Pouco tempo depois da cirurgia, ele já tinha uma vida normal. Ele voltou ao acampamento, cortava madeira, carregava peso, comia o que queria, não precisava de diálise. Era uma outra vida", conta o médico.
Homem era paciente terminal e viveu 271 dias com rim de porco
Divulgação
Antes dele, um paciente da equipe de Riella também havia passado pelo xenotransplante, em 2024, mas sobreviveu apenas 52 dias — morreu por condições cardíacas sem relação com o procedimento. Até então, nenhum paciente havia sobrevivido mais de dois meses com um rim de origem animal no corpo.
Tim rompeu essa barreira: foram 271 dias com o rim de porco, que precisou ser retirado depois de uma reação do sistema imunológico, um dos maiores desafios dos transplantes.
Riella explica que o paciente teve uma infecção bacteriana, o que levou à necessidade de reduzir os medicamentos imunossupressores — responsáveis por impedir que o corpo rejeite o órgão transplantado. Com a imunossupressão mais baixa, o organismo passou a atacar o rim suíno, até que ele precisou ser removido.
Oitenta e dois dias depois, Tim recebeu um transplante de rim humano, que segue funcionando sem sinais de rejeição.
"A gente conseguiu ver o quanto esse tempo de sobrevida com o xenotransplante foi impactante na vida dele. Aprendemos muito com esse caso e esse feito inédito é um avanço para a medicina e para os pacientes. Esse é o primeiro passo, evitar que os pacientes fiquem na diálise. A ambição depois é que possa substituir o transplante humano", explica Riella.
Paciente era terminal e conseguiu sobrevida para, depois, receber um transplante
Kate Flock/Massachusetts General Hospital
Como um rim de porco pode ser usado por um ser humano?
O rim usado no caso de Tim não é de um porco comum, mas de um animal feito especificamente para esses casos e geneticamente modificado.
A primeira mudança mira no maior obstáculo do xenotransplante: a rejeição hiperaguda, reação imediata e violenta do corpo humano contra o tecido do porco. Ela acontece porque as células suínas têm, na superfície, moléculas de açúcar que funcionam como uma espécie de identidade estranha — um sinal que o sistema imunológico humano reconhece na hora e ataca
Em laboratório, antes que os animais nasçam, os cientistas eliminaram os genes responsáveis por essas moléculas. Assim, eles nascem com esse defeito, o que reduz drasticamente a chance desse ataque acontecer.
A segunda modificação lida com um risco diferente: o DNA dos porcos carrega, naturalmente, fragmentos de vírus. Eles normalmente ficam inativos, mas existia a preocupação de que pudessem se reativar dentro do corpo humano e causar infecção. Por isso, esses vírus também foram desativados.
Por fim, os cientistas inseriram sete genes humanos no material genético do porco. A lógica é parecida com trocar peças específicas de uma engrenagem para que ela se encaixe melhor em outro mecanismo: esses genes fazem com que o órgão produza proteínas mais parecidas com as humanas, o que ajuda o corpo do paciente a reconhecer o rim como menos estranho.
Médico brasileiro lidera primeiro transplante de rim suíno geneticamente modificado
Arte/g1
Ao todo, foram cinco anos de pesquisas com edições até encontrar a fórmula que pudesse ter a melhor resposta no corpo humano. O processo foi aprovado pelo FDA, a agência reguladora americana.
O que os especialistas apontam é que a edição genética parece ter encontrado a chave para aproximar o xenotransplante da realidade. A inativação de marcadores animais conseguiu aumentar a sobrevida do órgão no corpo humano.
USP avança nos estudos sobre xenotransplante
Como isso pode mudar o futuro do transplante?
Há décadas, a medicina busca alternativas para reduzir a dependência de doadores humanos, hoje insuficientes para atender à fila de pacientes que precisam de um rim.
Diferentes caminhos vêm sendo estudados para resolver esse gargalo, entre eles o desenvolvimento de órgãos artificiais e o próprio xenotransplante. Para Riella e outros especialistas ouvidos pelo g1, é o segundo que está mais perto de se tornar realidade.
Segundo o médico, o xenotransplante avança na frente porque faz parte de uma biologia que já existe e funciona. Recriar um órgão inteiramente artificial e eficiente, segundo ele, ainda exigiria cerca de 20 anos de pesquisa.
“A gente viu que um órgão animal funciona plenamente em um ser humano. Ele teve a capacidade de regular os minerais e a água exatamente como os rins humanos. Superamos muitos obstáculos”, explica Riella.
A expectativa do pesquisador é que, em cinco anos, o procedimento se torne uma alternativa real para pacientes com insuficiência renal, ainda que não para todos: a indicação seria restrita a quem já seria candidato a um transplante humano convencional.
O maior obstáculo hoje é o ajuste da imunossupressão, medicação que evita que o corpo rejeite o órgão transplantado. Segundo Riella, a resposta imunológica é mais intensa logo após a cirurgia e tende a diminuir com o tempo, mas a equipe médica ainda está testando quais doses podem ser reduzidas com segurança ao longo do tratamento.
“O tempo mais longo dessa vez nos mostrou mais respostas sobre esse manejo, mas a gente precisa de mais testes clínicos observando pacientes para entender melhor essas dosagens”, explica.
A longo prazo, a ambição é que esse aprendizado permita ao rim suíno alcançar durabilidade suficiente para competir com o transplante humano — e, no limite, funcionar de forma praticamente invisível ao corpo do paciente, sem depender de imunossupressores.
Para o médico especialista em transplante, Rafael Pinheiro, a pesquisa traz uma nova perspectiva para médicos e pacientes.
“Essas pesquisas nos dão uma perspectiva de que, no futuro, a gente consiga não depender mais de doadores falecidos para o transplante. Isso é uma nova chance para esses pacientes”, explica.
O médico explica, porém, que os estudos estão em andamento e, ainda que sejam concluídos nesse prazo, existe uma diferença entre o tempo necessário para a tecnologia se tornar realidade e o tempo para ela ser aplicada a milhares de pacientes no país.
Mas o Brasil também vem dando passos nessa direção. Em abril, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) anunciaram o nascimento do primeiro porco clonado no país, em um laboratório em Piracicaba, no interior paulista. O projeto integra o Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Xenotransplante da USP.
A equipe segue uma lógica semelhante à usada nos Estados Unidos: identificou três genes suínos ligados à rejeição e aprendeu a desativá-los, além de inserir sete genes humanos nos óvulos dos porcos para aumentar a compatibilidade dos órgãos. A etapa de edição genética foi dominada em 2022. Faltava reproduzir esses animais em escala — daí a importância da clonagem.