Quais são as doenças e profissões mais associadas a afastamentos por saúde mental na região de Ribeirão e Franca
06/07/2026
(Foto: Reprodução) Perícia médica é etapa obrigatória para concessão e continuidade de alguns benefícios do INSS.
Fabiane de Paula/SVM
Um estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT) aponta que, em 2024, as seis maiores cidades da região de Ribeirão Preto (SP) tiveram 5,6 mil afastamentos causados por problemas de saúde mental no trabalho, o maior número da série histórica desde 2012.
Em parte associados a acidentes de trabalho, esses afastamentos ocorreram por doenças ligadas a stress, ansiedade e depressão e atingem principalmente profissões como técnico de enfermagem e auxiliar de escritório em Ribeirão Preto, Franca (SP), Sertãozinho (SP), Barretos (SP), Jaboticabal (SP) e Bebedouro (SP).
Além dos prejuízos sociais, esses afastamentos afetam a iniciativa privada, com milhares de dias que acabaram pagos pelas empresas sem a prestação dos serviços dos funcionários doentes.
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Nesse contexto, recentemente entrou em vigor uma versão atualizada da Norma Regulamentadora de número 1 (NR-1) do Ministério do Trabalho que tornou obrigatório a empresa identificar, prevenir e reduzir riscos à saúde mental no ambiente de trabalho, como assédio, metas abusivas e jornadas excessivas.
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Em um contexto em que a tecnologia, a internet e as redes sociais exigem respostas rápidas e dificultam a divisão entre o que é trabalho e descanso, saber lidar com a saúde mental tornou-se imperativo não só para as pessoas como também para as organizações.
"Somos, antes de tudo, pessoas. Mas a maioria ainda não consegue compreender esse aspecto. (...) Mesmo tardiamente, estamos começando a entender o que nos move, o valor das emoções, do apoio entre colegas, do reconhecimento, das relações humanas. E o trabalho não é um espaço à parte da vida. O trabalho é uma das dimensões da vida", afirma o cientista político João Augusto do Carmo, autor do e-book "Nova NR-1 Avançada: o diferencial das grandes empresas para os melhores resultados."
Você vai ler nesta reportagem:
Quais as doenças emocionais associadas a afastamentos do trabalho?
Quais são as profissões com mais afastamentos por saúde mental?
Disponibilidade emocional e pressão social são fatores relevantes
O que explica o recorde de afastamentos por transtornos mentais?
Como um transtorno de saúde mental se torna um acidente de trabalho?
Quais são os riscos psicossociais e como eles afetam as empresas?
Vista aérea de Ribeirão Preto, SP
Reprodução/EPTV
Quais as doenças emocionais associadas a afastamentos do trabalho?
De acordo com o Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho, do Ministério Público do Trabalho (MPT) com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), as principais doenças associadas à saúde mental no trabalho nas principais cidades da região de Ribeirão Preto são:
episódios depressivos
outros transtornos ansiosos
transtornos fóbico-ansiosos
Transtorno depressivo recorrente, reações ao stress grave, transtornos de adaptação e transtorno afetivo bipolar também aparecem nas estatísticas, em menor proporção.
As estatísticas são ligadas tanto a afastamentos motivados ou não motivados por acidentes de trabalho.
Segundo Marina Sticca, professora Associada do departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP, a gravidade de um transtorno mental não é determinada apenas pelo nome da doença, mas sim pela intensidade dos sintomas, sua duração, o impacto na vida da pessoa e como ela responde ao tratamento.
"Para identificar os fatores que levam ao adoecimento mental é necessário realizar uma avaliação sistemática dos riscos psicossociais presentes no ambiente de trabalho", explica.
Quais são as profissões com mais afastamentos por saúde mental?
Segundo o levantamento, as áreas com maior incidência de afastamentos por saúde mental são as ligadas a atendimento médico hospitalar, bancos e comércio varejista. Atividades ligadas a correios e administração pública também se destacam nas maiores cidade da região. Entre elas, algumas profissões predominaram.
📌Em Ribeirão Preto, onde foram registrados 2.984 afastamentos em 2024, os maiores índices de afastamento ocorreram entre técnicos de enfermagem, vigilantes, auxiliares de escritório e vendedores.
Os males invisíveis do trabalho para a saúde mental
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📌Em Franca, com 1.561 afastamentos, destaque para operadores de caixa, auxiliar de escritório, vendedor e preparador de calçados - levandos-se em conta que a cidade é um forte polo produtor de sapatos.
📌Em Sertãozinho, com 337 afastamentos por saúde mental, além de operador de caixa e vendedor, gerente de banco e faxineiro estiveram em alta nas estatísticas da Organização Internacional do Trabalho.
📌Em Barretos, onde 402 ocorrências de afastamento foram contabilizadas, as maiores taxas de afastamento por saúde mental ocorreram entre técnicos de enfermagem, auxiliares de escritório, além de alimentador de linha de produção.
📌Em Bebedouro, com 188 afastamentos no último levantamento, destaque para gerente de banco, vendedor e ainda trabalhador de cultivo de árvores frutíferas - a cidade é um forte produtor de laranja.
📌Em Jaboticabal, engenheiros de produção, assistentes administrativos e cozinheiros industriais foram as profissões predominantes entre os 155 casos de afastamento.
NR-1: veja o que muda com a nova regra sobre saúde mental no trabalho
Disponibilidade emocional e pressão social são fatores relevantes
Como se vê nas profissões mencionadas, a interação contínua com o público é um dos principais gatilhos para o esgotamento, por conta da necessidade de disponibilidade emocional, segundo Marina Sticca.
"O elemento comum entre essas ocupações é a necessidade de manter um elevado envolvimento emocional com outras pessoas, frequentemente diante de conflitos, reclamações, sofrimento ou cobranças constantes", afirma.
Ela analisa que o risco é maior quando esse contato ocorre sob alta pressão e baixo suporte organizacional.
"Historicamente, a Síndrome de Burnout foi descrita justamente em profissionais que trabalham diretamente com pessoas, como profissionais da saúde, professores e assistentes sociais. Atualmente, sabe-se que ela também afeta trabalhadores de bancos, comércio, teleatendimento e serviços em geral."
Para João Augusto, outra questão que influencia é a cultura da crítica agressiva nas redes sociais, que migrou para o mundo real e atinge principalmente professores, profissionais da saúde e atendentes, inclusive com episódios de desrespeito.
Essa pressão, somada a metas inalcançáveis no setor comercial e bancário, cria um ambiente fértil para o desenvolvimento de Síndrome do Pânico e Burnout.
"Pessoas com profissões que lidam com a área social, exposição a episódios ligados à violência ou perigo constante podem desencadear síndrome do pânico, transtorno de estresse pós-traumático, depressão profunda."
O que explica o recorde de afastamentos por transtornos mentais?
O aumento expressivo não pode ser reduzido a um único motivo, mas a uma combinação de fatores estruturais e conjunturais.
A professora Marina Greghi Sticca destaca que o período pós-pandemia de Covid-19 intensificou as demandas, a sobrecarga e a insegurança econômica, afetando o equilíbrio entre vida pessoal e profissional.
Além disso, houve um avanço no reconhecimento institucional: em 2023, a atualização da lista de doenças relacionadas ao trabalho passou a incluir formalmente a Síndrome de Burnout.
A visibilidade dos dados também melhorou devido a mudanças nos sistemas de registro do INSS. Desde 2007, o Nexo Técnico Epidemiológico Previdenciário (NTEP) permite que o órgão identifique doenças ocupacionais mesmo sem a emissão da Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) pela empresa.
"Essa mudança ampliou a identificação dos casos pelos serviços de saúde e facilitou seu enquadramento como doença ocupacional, quando existe nexo com a atividade laboral."
Segundo João Augusto, também conta a a digitalização da vida, em que a velocidade das redes sociais e o excesso de informações sobrecarregam o cérebro, que não consegue lidar com tamanha demanda simultânea.
"Nos treinamentos e formações que realizo, muitos trabalhadores e trabalhadoras se queixam de que são obrigados a escutar as mensagens de clientes, pelo celular, na velocidade 2.0, acelerando a voz de todas as pessoas. Só assim conseguem dar conta. E isso, claro, é um fator de adoecimento."
Como um transtorno de saúde mental se torna um acidente de trabalho?
Na legislação brasileira, o termo "acidente" não abrange apenas eventos súbitos, mas também doenças ocupacionais desenvolvidas pelas condições de trabalho. É por isso quem segundo Marina, o INSS diferencia o benefício previdenciário comum (B31) do acidentário (B91).
Este último é aplicado quando fica comprovado o nexo entre o adoecimento, como depressão ou ansiedade, e fatores como metas excessivas ou jornadas prolongadas.
O impacto mental também reflete na segurança física. Transtornos psíquicos comprometem funções cognitivas como atenção, memória e concentração.
"Como consequência, trabalhadores com sofrimento psíquico importante podem apresentam maior probabilidade de cometer erros operacionais ou sofrer acidentes. Nesses casos, o acidente registrado pelo INSS é físico, mas o transtorno mental pode ter contribuído para sua ocorrência ao reduzir a capacidade de atenção e julgamento do trabalhador", afirma a professora da USP.
Segundo João Augusto, o excesso de tarefas simultâneas, a chamada sobrecarga cognitiva, gera prejuízos psicológicos, físicos, emocionais e sociais, o que aumenta a probabilidade de erros operacionais que resultam em acidentes físicos.
"Tudo isso está ligado ao adoecimento mental, que pode ser grave e deixar sequelas."
Quais são os riscos psicossociais e como eles afetam as empresas?
Os riscos psicossociais originam-se na forma como o trabalho é organizado e gerido.
João Augusto exemplifica esses riscos como a falta de autonomia, cobranças humilhantes, assédio, isolamento e a ausência de clareza na comunicação.
Marina Sticca reforça que a gravidade desses episódios depende da intensidade e duração dos sintomas, exigindo uma avaliação sistemática do ambiente para identificar o que de fato está adoecendo o colaborador.
É nesse contexto que a nova norma regulamentadora (NR-1) exige que as empresas realizem o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), incluindo fatores psicossociais e de maneira contínua.
"Não há lógica em esperar dar o horário de saída do emprego para uma pessoa poder se sentir feliz", afirma João Augusto.
Para o cientista político, o primeiro passo para as empresas é promover espaços de escuta real, indo além da burocracia.
"Não é uma avaliação clínica do trabalhador, de toda a sua vida, mas se o trabalho, em si, pode afetar sua saúde psicológica, emocional, social. (...) É preciso promover um ambiente em que haja apoio, suporte, diálogo, clareza na função, transparência, metas atingíveis, pausas, jornadas sem sobrecarga ou excessivas, ações de reconhecimento à importância de cada pessoa para o dia a dia da empresa."
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