Peixe recém-descoberto na Amazônia já enfrenta risco de desaparecer, aponta estudo

  • 22/08/2026
(Foto: Reprodução)
Macho da espécie recém-descoberta no Amapá Yuri Abrantes Um peixe de poucos centímetros, de cores intensas e até então desconhecido pela ciência foi encontrado no sul do Amapá. Batizada de Laimosemion laranja, a nova espécie é conhecida em apenas três localidades da região do Rio Cajari, no município de Laranjal do Jari (A), e os pesquisadores alertam que os ambientes onde ela vive já sofrem impactos provocados por atividades humanas. A descrição foi baseada em análises morfológicas e moleculares. O estudo indica que a espécie possui diferenças genéticas e características físicas que permitem distingui-la dos demais integrantes do gênero Laimosemion. 📱 Acompanhe o Terra da Gente também no Instagram “A combinação entre informações obtidas do DNA mitocondrial e características morfológicas reúne as principais evidências que tornam L. laranja uma nova espécie”, explica o biólogo e pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) Yuri Abrantes. Segundo ele, as análises de DNA revelaram divergências genéticas entre 5,3% e 12,3% na comparação com outras espécies avaliadas. “Em adição, também difere morfologicamente das demais pela coloração, padrões de escamação da cabeça e do corpo, contagem de raios das nadadeiras e estruturas ósseas do corpo”, completa. O artigo detalha que a menor divergência genética encontrada, de 5,3%, ocorreu em relação a Laimosemion agilae e Laimosemion strigatus. Em relação a L. dibaphus, a diferença foi de 9,2%, enquanto a comparação com L. geayi chegou a 12,3%. Veja mais notícias do Terra da Gente, no g1: BIRDWATCHING: Terra da Gente acompanha evento dedicado à observação de aves e revela biodiversidade de Tapiraí (SP) GASTRÓPODES: Cavernas do Pará escondem mistérios; duas novas espécies são encontradas NAS ALTURAS: Quais urubus existem no Brasil? Conheça cinco espécies e suas diferenças Descoberta aconteceu durante busca por outros peixes Encontrar uma espécie desconhecida não era exatamente o objetivo que havia levado os pesquisadores àquela região do Amapá. A equipe realizava um estudo voltado a peixes da família Poeciliidae, grupo que inclui animais popularmente conhecidos como “barrigudinhos”, quando um pequeno peixe chamou a atenção. “Estávamos realizando um estudo com foco em outros peixes da família Poeciliidae, popularmente conhecidos como ‘barrigudinhos’. Ao visitar uma das localidades-alvo, no sul do estado do Amapá, encontramos esse peixe com seu exuberante colorido, o que foi algo inédito para nós”, conta Abrantes. Veja o que é destaque no g1: Agora no g1 Os exemplares analisados foram coletados em diferentes expedições. O holótipo — indivíduo utilizado como referência formal para a descrição da nova espécie — é um macho de 26,8 milímetros coletado em junho de 2025, no Igarapé Massaranduba, na drenagem do Rio Cajari, em Laranjal do Jari. O estudo também analisou exemplares coletados em 2024 e 2025 em outros pontos da região. Entre os exemplares estudados, o maior macho apresentou 27,8 milímetros de comprimento padrão, enquanto a maior fêmea chegou a 20,6 milímetros. Os machos também são os responsáveis por uma das características mais marcantes da espécie: a coloração. Eles apresentam pontos alaranjados dispostos longitudinalmente na parte anterior do corpo e barras oblíquas, também alaranjadas, na região posterior. Essas características fazem parte do conjunto utilizado pelos pesquisadores para posicionar o novo peixe no grupo de espécies de Laimosemion geayi. Um peixe conhecido em apenas três lugares Até agora, a ciência registrou Laimosemion laranja em somente três localidades na porção inferior da drenagem do Rio Cajari, tributário da Bacia Amazônica, em Laranjal do Jari. Os animais foram encontrados em poças próximas ao curso principal de riachos, em três áreas florestadas. Segundo o artigo, esses ambientes apresentavam vegetação aquática flutuante, água clara com correnteza moderada, substrato arenoso ou lodoso e profundidades entre 0,5 e 1 metro. A distribuição conhecida, porém, pode não representar toda a área ocupada pela espécie. Uma das localidades fica na borda da Reserva Extrativista do Rio Cajari. Os pesquisadores não encontraram nem coletaram exemplares dentro da unidade de conservação, mas consideram possível que o peixe também ocorra no interior da reserva. “Embora não tenhamos coletado dentro da Reserva, o nosso registro realizado nas margens sugere que L. laranja pode ocorrer dentro da RESEX”, afirma Abrantes. Por isso, a equipe recomenda novas amostragens dentro e fora da unidade de conservação para determinar com maior precisão a distribuição geográfica do peixe. Fêmea da espécie Laimosemion laranja Yuri Abrantes “Em nosso estudo, recomendamos a realização de novas amostragens de campo dentro e fora da Reserva, visando conhecer melhor a distribuição geográfica da espécie e subsidiar ações para conservação, como, por exemplo, ampliar os limites dessa unidade de conservação para proteger a nova espécie”, diz o pesquisador. A recomendação também aparece no artigo científico. Os autores defendem levantamentos adicionais dentro e no entorno da Reserva Extrativista do Rio Cajari e apontam a ampliação da área protegida para incluir uma localidade adjacente como uma medida voltada à conservação de longo prazo da espécie. Descoberta e ameaça caminham juntas Se por um lado a espécie acaba de ganhar um nome científico, por outro os pesquisadores já encontraram sinais de degradação nos poucos locais onde ela é conhecida. “Peixes de pequeno porte como esses, restritos a pequenos riachos ou habitats sujeitos a inundações sazonais, são frequentemente subamostrados, apesar de seus papéis fundamentais na estruturação das comunidades ecológicas”, explica Abrantes. Para o pesquisador, conhecer pouco esses ambientes e seus habitantes também dificulta a conservação. “Como consequência, a falta de conhecimento tende a elevar os casos de impactos antrópicos nos ambientes onde esses organismos vivem.” Nas expedições, a equipe verificou diferentes pressões sobre os ambientes ocupados pelo peixe. “Em nossos estudos de campo, verificamos que Laimosemion laranja pode ser classificado como ‘em perigo de extinção’, principalmente devido à distribuição geográfica restrita e ao declínio de habitat. Neste último caso, a expansão urbana e o garimpo são apontados como os principais fatores de ameaça”, afirma Abrantes. O artigo fornece um retrato mais detalhado desses impactos. Uma das áreas de ocorrência fica no limite da Reserva Extrativista do Rio Cajari. Apesar da proximidade com a unidade protegida, os pesquisadores registraram sinais de desmatamento e árvores queimadas. No mesmo local, moradores identificaram algumas poças como remanescentes de atividades de mineração. O estudo relata água com elevada concentração de sólidos em suspensão e coloração avermelhada nesses ambientes. A localidade-tipo fica cerca de 180 metros de uma subestação de energia elétrica de Laranjal do Jari. Já o terceiro ponto conhecido está em um riacho florestado dentro da cidade, onde o estudo associa a urbanização à perda de habitat e à presença de poluição plástica nas áreas úmidas ocupadas pela espécie. Estudo propõe classificação como “Em Perigo” A equipe avaliou o estado de conservação com base nos critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Os pesquisadores calcularam uma extensão de ocorrência de 25 km² e uma área de ocupação de 12 km². Ao considerar também a distribuição restrita e o declínio contínuo dos ambientes conhecidos, o estudo conclui que Laimosemion laranja deveria ser classificado como “Em Perigo” (Endangered) segundo os critérios da IUCN. A avaliação, portanto, é uma proposta feita pelos autores a partir dos critérios da organização e não deve ser confundida com uma eventual inclusão oficial da espécie na Lista Vermelha. Para Abrantes, os impactos encontrados também mostram que a proteção atual ainda não é suficiente. “Considerando que a expansão urbana e as atividades de garimpo são apontadas como os principais impactos antrópicos nos habitats amostrados, nossa avaliação sugere que a proteção da região não é suficiente.” O pesquisador defende a continuidade das investigações sobre a espécie. “A continuação de novos estudos será fundamental para obter conhecimento sobre a real distribuição geográfica e a ecologia de L. laranja e subsidiar os próximos ciclos avaliativos do Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Peixes Rivulídeos Ameaçados de Extinção, realizado pelo CEPTA-ICMBIO.” Segundo ele, ampliar esse conhecimento também pode ajudar a revelar uma parcela ainda pouco conhecida da diversidade de peixes da Amazônia. Região em que a nova espécie foi encontrada no Amapá Google Earth / Reprodução “Isso nos ajudará a conhecer melhor a diversidade ictiofaunística ainda subamostrada da Amazônia, bem como a nortear ações para evitar a perda das áreas úmidas onde esses organismos habitam.” O próprio artigo ressalta que peixes pequenos e associados a habitats sazonalmente inundados costumam ser menos amostrados do que espécies de maior porte, embora tenham importância para os padrões de biodiversidade e para a estrutura das comunidades ecológicas. A descoberta também amplia para seis o número de espécies de rivulídeos de água doce citadas pelo estudo para o Amapá. Os autores destacam que diferentes habitats dessas espécies estão expostos a impactos relacionados à expansão urbana, atividades agrícolas e mineração. Por que 'laranja'? O nome escolhido pelos pesquisadores carrega duas referências diretamente ligadas à história da descoberta. “O nome Laranja é um epíteto específico com duas alusões: a primeira faz referência ao lindo padrão de colorido laranja que os machos da espécie exibem. Já a segunda é uma homenagem à cidade de Laranjal do Jari, no sul do Amapá, onde a localidade-tipo da espécie está situada”, explica Abrantes. A explicação é confirmada pela descrição taxonômica: além da coloração laranja brilhante dos machos, o nome homenageia o município de Laranjal do Jari, região onde, até o momento, estão todos os registros conhecidos da nova espécie. Assim, o mesmo nome que destaca uma das características mais visíveis do pequeno peixe também carrega a referência ao único lugar do planeta onde, até agora, a ciência sabe que ele ocorre. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2026/08/22/peixe-recem-descoberto-na-amazonia-ja-enfrenta-risco-de-desaparecer-aponta-estudo.ghtml


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