'Mandou comer no chão com fezes', relata ex-paciente de clínica alvo de operação do MP em MG
21/08/2026
(Foto: Reprodução) 'Mandou comer no chão com fezes', relata ex-paciente de clínica alvo de operação do MP
"Jogou a comida no chão, tinha fezes, mandou comer."
O relato de um ex-paciente está entre as novas denúncias feitas contra a clínica neuropsiquiátrica de Alfenas (MG), alvo de uma operação do Ministério Público nesta semana. Além das acusações de maus-tratos, agressões e condições degradantes, um caso de estupro envolvendo adolescentes também é acompanhado pelo Conselho Tutelar.
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Durante a operação, o Ministério Público encontrou sete homens, com idades entre 27 e 48 anos, em situações consideradas precárias. Segundo as investigações, eles estavam confinados em cômodos com fezes espalhadas pelo chão e apresentavam sinais de debilidade física. Os fatos apurados apontam para os crimes de maus-tratos, sequestro e cárcere privado.
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Reprodução EPTV
Os relatos de ex-pacientes descrevem episódios de violência física e humilhação dentro da instituição.
"Tiraram a minha roupa, me tacaram num quarto com a porta maciça. Nesse quarto tinha fezes, tinha urina, e eles me espancaram. Juntou dois. Enquanto um batia na minha cara na frente, o outro chutava as minhas costas", afirmou um ex-interno.
Ele afirmou ter passado a noite em um cômodo molhado, sobre um piso gelado, e relatou ainda ter sido submetido a situações degradantes.
"A moça que servia comida foi lá, jogou a comida no chão, tinha fezes, mandou comer. Tratamento igualzinho de animal mesmo", disse.
Denúncia de estupro
Em março deste ano, o Conselho Tutelar recebeu uma denúncia anônima sobre um suposto caso de estupro e coerção envolvendo dois adolescentes internados na clínica. Uma das vítimas foi retirada do local, enquanto a outra permanece na instituição.
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Reprodução EPTV
Segundo a conselheira tutelar Valéria Aparecida da Silva, o caso envolve dois adolescentes e um adulto.
"Foi uma situação bem complicada. Esse outro menino está lá ainda e a gente está vendo o que vai fazer para ajudar, porque ontem mesmo ele me abraçou e pediu ajuda. Quer sair de lá, porque lá é só sofrimento", afirmou.
Atualmente, a clínica abriga 24 adolescentes. De acordo com as autoridades, pacientes em tratamento contra dependência química e pessoas com transtornos psiquiátricos compartilham os mesmos espaços e recebem tratamentos semelhantes.
Gabinete de crise foi criado
A repercussão da operação levou o Ministério Público e a Prefeitura de Alfenas a criarem um gabinete de crise para acompanhar a situação dos pacientes internados e daqueles encaminhados a hospitais da região.
As denúncias contra a instituição não são recentes. Em 2008, uma reportagem da EPTV, Afiliada Rede Globo, já apontava suspeitas de maus-tratos e falta de profissionais para atender ao número de pacientes. Mais recentemente, em 2024, a família de um adolescente de 15 anos que morreu após passar pela clínica acusou a instituição de negligência no atendimento.
Marli Martins de Lima e o neto que morreu após ser internado em clínica que foi interditada em Alfenas
Arquivo pessoal e EPTV
"Foi muito triste, foi um baque que a gente não consegue até hoje. Quando eu vi a reportagem, foi muito forte, porque na época eu tive que fazer um tratamento psicológico", disse a empresária Marli Martins da Silva.
Ela afirmou ainda que a família não teve acesso às instalações da clínica durante o processo de internação.
"Quando a gente entrou, quando a gente ia colocar ele lá, não foi permitido ver a clínica por dentro. A gente viu só através de fotos", contou.
Prefeitura e MP criam gabinete de crise para apurar denúncias em clínica de Alfenas
Para um dos ex-pacientes, a expectativa é de que haja responsabilização pelos fatos relatados.
"Tomara que fecha mesmo e que seja feita a justiça. Você pagar para uma clínica R$ 4 mil e ser torturado, não ter nem as condições básicas de higiene, não ter limpeza, não ter as condições básicas para você tomar um banho, para você se alimentar, é muito ruim", afirmou.
Médico responsável foi preso, mas liberado no mesmo dia
O médico responsável e proprietário da clínica, Bahjat Mohamed Ahmed Ali Hammad, foi preso durante a operação, mas recebeu alvará de soltura na quarta-feira. O caso segue sob investigação.
Os pacientes que estavam no Hospital Alzira Velano foram transferidos para Passa Quatro (MG) e Barbacena (MG). O processo de transferência de cada paciente foi realizado pelas prefeituras das cidades em que nasceram.
Segundo o comitê de crise montado pela Prefeitura de Alfenas, 121 pessoas com idades entre 30 e 45 anos seguem internados na clínica.
A EPTV procurou a Polícia Civil, que informou que as denúncias de possíveis abusos sexuais foram recebidas e estão sendo consideradas na apuração dos fatos. A reportagem também entrou em contato com a defesa do dono da clínica, mas não teve retorno.
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