Mais carros elétricos levam carregadores para o centro da disputa em condomínios

  • 16/08/2026
(Foto: Reprodução)
O aumento nas vendas de carros elétricos provoca debate nos condomínios O avanço dos carros elétricos no Brasil começa a mudar também a rotina dos condomínios. A instalação de pontos de recarga nas garagens já chegou às assembleias e divide moradores entre aqueles que querem carregar o veículo na própria vaga e os que se preocupam com os impactos da mudança na estrutura e nos custos do prédio. Em um condomínio no Rio de Janeiro, com 170 apartamentos, há apenas uma estação de recarga, instalada em uma vaga de visitante. A discussão sobre ampliar a estrutura ainda divide os moradores — e uma das principais dúvidas é quem deve pagar pela energia consumida pelos veículos. Segundo o advogado especialista em condomínios Marcio Rachkorsky, esse é um dos questionamentos que mais aparecem nas discussões: “O que mais eu ouço: 'Mas ele não paga a minha gasolina, por que eu tenho que pagar a eletricidade do carro dele? Cada um que pague a sua.'” A resistência, porém, não se resume à conta de luz. Para a arquiteta Alice Camargos, parte da oposição à instalação dos carregadores vem justamente de moradores que ainda não têm um veículo elétrico: “As pessoas que estão ao contrário são pessoas que não têm o carro elétrico.” A administradora do condomínio, Gabriela Mattos, vê outro fator por trás da resistência: a falta de informação. Segundo ela, existe “um preconceito muito muito grande em relação a isso, até por falta de conhecimento, por falta de informações”. Nesse cenário, a discussão ainda está longe de ser consensual. A cirurgiã-dentista Danielle Machado reconhece que o tema provoca divergências, mas vê o conflito como parte do processo de adaptação à nova tecnologia. “Tá muito acirrado, tá polêmico. Mas a gente sabe que isso é normal. Toda mudança, todo processo de transformação se fazem necessário muita discussão, muito diálogo” Mais carros elétricos, mais necessidade de recarga A discussão ganha força à medida que mais veículos elétricos e híbridos chegam às ruas. Em um ano, as vendas desses modelos triplicaram. Atualmente, são mais de 815 mil veículos desse tipo circulando no Brasil. No primeiro semestre, eles representaram cerca de 16% do total de carros vendidos. Em julho, os emplacamentos de elétricos superaram os de veículos a diesel pela primeira vez. Com mais carros desse tipo nas ruas, também muda a forma de abastecer. A recarga pode ser feita em hotéis, shoppings, supermercados, empresas ou em casa, mas exige um planejamento diferente do abastecimento em um posto de combustível. O engenheiro eletricista Sidney Aparecido Antônio instalou um carregador em casa. Segundo ele, o tempo necessário depende do equipamento: nesse tipo de carregadores, é 25 a 30 minutos para carregar 50% do necessário. Mercado de carros elétricos ganha força no Brasil Reprodução/TV Globo “Se você gasta R$ 3 mil por mês, você vai estar a gastar R$ 500.” Para quem depende do carro para trabalhar, porém, não ter um carregador disponível em casa pode complicar a rotina. A taxista Patrícia Martins Neves trabalha há sete meses com um veículo elétrico e precisa manter a bateria carregada para atender aos clientes. No condomínio onde mora, ainda não há pontos de recarga. Ela e outros dois moradores que têm carros elétricos aguardam uma solução. “A gente já conversou com o síndico, ele falou que no momento não dá. Só que no futuro isso vai ser feito. É pra gente ter paciência e esperar.” A infraestrutura elétrica que leva energia até o carregador faz parte do prédio e pode ser compartilhada entre os demais condôminos. Reprodução/TV Globo Por que a instalação vira uma decisão do condomínio? O problema é que, embora a vaga seja de uso do morador, a estrutura elétrica necessária para levar energia até ela faz parte do prédio e pode ser compartilhada pelos demais condôminos. Por isso, instalar um carregador não é apenas uma decisão individual. É preciso avaliar se a rede elétrica suporta os novos equipamentos, quais adaptações serão necessárias e como os custos serão divididos. Para Rachkorsky, a conta deve separar a estrutura coletiva do consumo de cada veículo. “A estrutura todo mundo paga. Agora, a energia só paga quem vai usar. Tem que fazer um projeto, tem que estar dentro das normas do bombeiro, tem que fazer uma assembleia, os moradores precisam aprovar, custear tudo isso, arrecadar o dinheiro, aí sim.” Em São Paulo, uma lei estadual garante ao morador o direito de instalar um carregador na própria vaga, desde que sejam observadas regras de segurança. O condomínio só pode impedir a instalação mediante justificativa técnica. Mesmo assim, a síndica profissional Elisabeth Machado Gomes afirma que o assunto deve ser discutido coletivamente: “É um perereco. Não é só porque a lei está aí, foi criada, e que eu posso sair fazendo, ou ele pode fazer da maneira que ele bem entende. Ele tem que esperar, sim, uma assembleia.” Prédios novos já preveem carregadores; antigos podem precisar de adaptações A estrutura disponível varia bastante de um condomínio para outro. Em um prédio recém-entregue em São Paulo, a garagem já foi planejada para receber carregadores. São 188 vagas, mas apenas três pontos de recarga instalados para uma frota de 18 carros elétricos. Em edifícios antigos, a adaptação pode ser mais complexa. Segundo Omar Anawat, presidente da Associação dos Administradores de Bens Imóveis e Condomínios de São Paulo (AABIC), muitos prédios não foram projetados para atender ao aumento da demanda por energia. “O prédio antigo, eu vou te dizer objetivamente, ele não vai dar conta de atender a uma demanda maior de energia. Isso é o maior risco possível para uma situação de carregamento: é você usar a tomada sem saber a carga, sem saber se a parte técnica está correta.” O engenheiro eletricista Fabio Delatore explica que a instalação pode exigir novos cabos e equipamentos de proteção e, em alguns casos, até um aumento da quantidade de energia fornecida pela concessionária. “Começa-se internamente uma operação de cabeamento, dispositivos de proteção, mas não se exclui a necessidade de, eventualmente, solicitar mais energia do concessionário. E aí está condicionada a disponibilidade ou não.” Segurança também preocupa Além da capacidade da rede elétrica, os condomínios precisam considerar os riscos relacionados às baterias dos veículos. O engenheiro eletricista Marco Aurélio Moreira afirma que as baterias de íon de lítio exigem cuidados específicos. “Existe a questão das baterias de íon de lítio, elas realmente têm uma questão de serem mais inflamáveis se expostas ao oxigênio.” O Corpo de Bombeiros também vem se preparando para ocorrências envolvendo veículos elétricos e sistemas de recarga. Segundo o capitão Murillo Rinaldi Amendoeira, a orientação é evitar instalações improvisadas. “A gente precisa evitar qualquer tipo de improviso. É um novo tipo de tecnologia. O bombeiro, no mundo todo, vem se preparando para atender esse tipo de ocorrência. É uma ocorrência um pouco mais complexa. Ela demanda novas táticas, novas técnicas, para fazer justamente esse combate.” Para moradores, carregadores podem virar diferencial Enquanto a assembleia do condomínio no Rio de Janeiro ainda não tem data para acontecer, moradores seguem discutindo os possíveis impactos da instalação dos carregadores. Para Alice Camargos, a infraestrutura pode inclusive aumentar o valor dos imóveis: “Porque hoje em dia todo mundo procura um prédio que tenha algo a mais.” Danielle Machado também vê a mudança como parte de uma transformação que tende a avançar: “Acredito que no final nós vamos conseguir sim. Nós vamos conseguir uma energia limpa, com estrutura, com segurança. Eu acredito porque esse é o futuro.”

FONTE: https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2026/08/16/mais-carros-eletricos-levam-carregadores-para-o-centro-da-disputa-em-condominios.ghtml


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