Mãe que procura filha que desapareceu após descobrir gravidez em 2009 diz que não vive: 'Preciso achá-la viva ou morta'
15/03/2026
(Foto: Reprodução) Mayra da Silva Paula, em Goiânia, Goiás
Arquivo Pessoal/Edlamar Rosário da Silva Oliveira
Desde o dia 3 de julho de 2009, não há um dia sequer que Edlamar Rosária da Silva Oliveira, de 60 anos, moradora de Nova Glória, na região central de Goiás, não pense na filha primogênita, que desapareceu em Goiânia, quando estava grávida. A estudante de enfermagem Mayra da Silva Paula, então com 20 anos, foi vista pela última vez por uma vizinha, proprietária do apartamento onde ela morava na capital. Desde então, o paradeiro da jovem é um mistério que não foi solucionado até hoje pelas autoridades policiais.
"Eu preciso de uma solução, preciso achá-la viva ou morta, do jeito que for. Tem que ter um término. Eles têm que retomar a investigação para saber o que que aconteceu com ela e onde ela está. Esse é o meu desejo. Para eu viver, sabe? Porque eu não vivo não. Dia e noite é assim...", desabafou a mãe.
A angústia da professora aposentada se deve ao arquivamento das investigações tanto pela Polícia Civil de Goiás quanto pela Polícia Federal, por falta de provas. Em entrevista ao g1, Breyder Ferreira da Silva, advogado da família, explicou que a investigação foi arquivada na Justiça Federal porque o Ministério Público considerou que não havia mais nada a ser feito. A família solicitou, porém, que o caso voltasse para o âmbito estadual, o que foi negado pela procuradoria.
"Acontece que, quando o processo estava na Justiça Estadual, ficaram algumas lacunas, algumas coisas sem investigação", afirmou Breyder.
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Essas lacunas também são apontadas pela mãe, Edlamar, que as atribui inclusive a uma sucessão de trocas de delegados que ficaram à frente das investigações. Na ocasião, o desaparecimento da filha foi registrado pela professora na delegacia de Ceres, mas o caso foi transferido para Goiânia, por ter sido o local onde aconteceu.
Na capital, as investigações ficaram a cargo do delegado Jorge Moreira da Silva, da Delegacia de Homicídios. Ele foi um dos oito mortos em um acidente de helicóptero da Polícia Civil, a 35 quilômetros de Piranhas, no sudoeste de Goiás, em maio de 2012.
"Ele fez todas as buscas, investigou todas as possíveis causas do desaparecimento. Na época, houve muitos boatos. 'Ah, ela foi vista em tal lugar'. Infelizmente, ficou sem resposta e sem notícias por muito tempo", relembra o advogado Breyder.
Edlamar conta que o caso chegou a fazer parte da operação da Força Nacional em Goiás, em 2011, que assumiu casos de homicídios sem solução no estado. Ainda assim, o desaparecimento de Mayra não foi elucidado.
Segundo a mãe, as investigações passaram pelas mãos de vários delegados.
"Eu perguntava como que estava, aí eles falaram 'nós estamos investigando". Aí, quando eu ia novamente, trocava delegado, colocavam outro. Eu falei: 'está trocando delegado demais. O trem está começando tudinho de novo. Esse trem não vai parar não?", narrou a professora.
O desaparecimento
Na sexta-feira em que sumiu, Mayra deveria ter ido para Nova Glória, como costumava fazer todo final de semestre da faculdade, para passar as férias com a família. A jovem, no entanto, não apareceu.
"Levantei de manhã, fiquei esperando e nada de ela chegar. O dia todo, nada. Aí, eu fiquei doida. Ligava para todo mundo. Ninguém sabia dela", relembra.
A mãe relata que na véspera do desaparecimento a filha tinha sido vista pela proprietária do apartamento onde ela morava com outras três colegas da faculdade. Essa mesma mulher, chamada Kênia, que morava em um apartamento ao lado, contou ter visto, perto da meia-noite, o carro do rapaz com o qual Mayra vinha se relacionando parado em frente ao prédio, no Setor Vila Maria José.
O rapaz era Tiago Luis Tavares de Sousa, então soldado da Polícia Militar de Goiás. Segundo Edlamar, os dois tinham um relacionamento de "idas e vindas". Edlamar, porém, não sabia que Mayra estava esperando um bebê. A última vez que havia visto a filha tinha sido em maio, quando Mayra a visitou por ocasião do Dia das Mães. Segundo ela, a filha não tinha barriga aparente.
A professora conta que Tiago sabia da gravidez de Mayra, o que ele lhe confessou posteriormente. Ela disse também que, segundo Kênia, na véspera do sumiço os dois tinham combinado de conversar sobre como iriam dar a notícia à mãe dela. Foi por meio de Kênia que ela descobriu a gestação da filha.
"Ela falou: 'o Tiago ia para lá para conversar com ela. Vou falar um negócio para a senhora, mas a senhora, quando encontrar a Mayra, não fala que eu te contei. A Mayra está grávida", contou Edlamar.
Essa revelação aconteceu na segunda-feira seguinte ao desaparecimento, dia 6 de julho de 2009. A frase foi dita por Kênia quando ela ligou para Edlamar dizendo que tinha acabado de receber um torpedo (mensagem de texto) do número de celular de Mayra, dizendo que estava bem e que havia deixado no apartamento uma carta para a mãe.
Carta que a goiana Mayra da Silva Paula deixou para a mãe antes de desaparecer, em julho de 2009
Arquivo pessoal/ Edlamar Rosária da Silva Oliveira
Carta para a mãe
Na carta, que estava sobre a mesa, embaixo do telefone fixo, a universitária contou que estava grávida de 6 meses. "Não tive coragem de enfrentar a senhora e, por isso, resolvi que não tinha saída", escreveu.
A mãe conta que, embora a filha tenha desaparecido no dia 3 de julho, a carta estava datada um mês antes, 3 de junho. Não se sabe se a carta havia sido escrita por ela de fato um mês antes e Mayra esqueceu de atualizar a data ou se ela escreveu mesmo no dia 3 de julho e confundiu o mês. Ao depor à Delegacia de Homicídios, Tiago afirmou que "anteriormente teve acesso" à carta, mas que não se lembrava do conteúdo.
Em tom de despedida, Mayra enfatizou o amor pela mãe e disse que ela se encontrava em uma situação difícil. "Me perdoa por isso, mas foi minha única saída. Tentei resolver de outra forma, mas não consegui", disse, sem detalhar que "saída" seria essa.
O g1 entrou em contato com Tiago, que respondeu que não tem nada a declarar, pois o assunto "está a cargo das autoridades competentes". A Polícia Militar de Goiás afirmou que, à época, realizou os procedimentos pertinentes relacionados ao caso, conforme previsto em suas atribuições legais, e que, diante da ausência de elementos probatórios suficientes, os registros foram posteriormente arquivados (leia a íntegra da nota ao final da reportagem).
Contradições
Edlamar conta que, em Nova Glória, na semana seguinte ao desaparecimento, Tiago estava na cidade. A família dele também morava lá. Ao questioná-lo, por telefone, sobre a filha, ele afirmou primeiramente que não havia nada entre eles e que ele tinha uma namorada na capital havia três anos.
"Eu falei: 'eu quero saber de você o que que aconteceu com a Mayra, que ela falou que vocês estavam se encontrando lá em Goiânia, namorando'. Ele disse 'não, nós não estávamos namorando, não. Nós éramos só amigos", contou.
Diante da negativa, a professora o pressionou, dizendo que sabia que eles estavam tendo um relacionamento. Como o rapaz continuou negando, Edlamar disse que iria à polícia de Goiânia contar o que aconteceu. Cerca de dez minutos depois, Tiago foi à sua casa, acompanhado da mãe, e pediu perdão à professora.
"'Ele falou: 'me perdoa, dona Edlamar. Eu errei mesmo. Ela estava grávida de mim mesmo. Só que ela falou que só viria se fosse comigo. E eu falei que não poderia vir com ela agora porque eu iria contar primeiro para a minha família", relatou.
Essa versão foi a mesma que Tiago apresentou à Delegacia de Homicídios, em um depoimento no dia no dia 25 de agosto de 2009, ao qual o g1 teve acesso. Tiago disse à polícia que não acreditava que Mayra tivesse sido vítima de algum crime e que achava que ela estava escondida em algum lugar, esperando o nascimento do bebê.
Nesse depoimento, o policial militar confirmou que esteve com Mayra no dia 3, em seu apartamento, quando ela lhe pediu para levá-la para Nova Glória, para os dois "resolverem a situação". Ele afirmou que, depois de se recusar a falar sobre a gravidez com a família dela antes da sua, ele não teve mais contato com a jovem.
Edlamar conta que, nessa mesma ocasião em que Tiago lhe pediu perdão, em sua casa, a mãe dele, que também parecia não saber do bebê que os dois esperavam, disse "por isso que a Mayra estava ligando muito lá em casa, para o meu telefone fixo". Nesse momento, Tiago falou para a mãe dele que era porque ele tinha jogado o chip do celular dele fora, para a Mayra "não ficar enjoando" ele.
"A mãe dele falou ''Meu filho, não foi isso que eu te criei não. Enjoando? Não é enjoando não, você é obrigado a cuidar dela que ela estava grávida de você'", contou Edlamar.
Nome incluído em lista da Interpol
Durante as investigações, o nome de Mayra chegou a ser incluído na chamada Difusão Amarela, lista da Interpol de alerta internacional para pessoas desaparecidas, diante da suspeita de que ela pudesse ter deixado o Brasil, o que até hoje não foi comprovado.
Ao g1, a PF explicou que, na época, a instituição encaminhou a documentação para fazer a difusão do nome de Mayra na chamada lista amarela. "A difusão amarela está válida até 13 de maio de 2031", afirmou.
O g1 questionou a Procuradoria da República em Goiás sobre as razões que levaram ao arquivamento da investigação pela PF, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem.
A Polícia Civil disse que a investigação foi arquivada por determinação da Justiça de Goiás. O g1 questionou o TJGO sobre o arquivamento, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem.
Qualquer pessoa que tiver informação sobre o paradeiro de Mayra, pode entrar em contato com a Polícia Civil pelo número 197.
Leia a íntegra da nota da Polícia Militar de Goiás:
"A Polícia Militar do Estado de Goiás informa que, à época dos fatos, realizou os procedimentos pertinentes relacionados ao caso, conforme previsto em suas atribuições legais. Contudo, diante da ausência de elementos probatórios suficientes, os registros foram posteriormente arquivados.
A Polícia Civil do Estado de Goiás, órgão competente para a condução da investigação criminal, realizou a apuração do desaparecimento da mulher e determinou o arquivamento do caso, em razão da inexistência de provas que sustentassem a continuidade da persecução penal.
A Polícia Militar do Estado de Goiás reforça seu compromisso com a transparência, a legalidade e o respeito às instituições, atuando sempre de forma responsável e em conformidade com a legislação vigente, em prol da segurança e da ordem pública".
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