Jovem biólogo troca o medo pela ciência e hoje estuda veneno de formiga contra o câncer

  • 04/02/2026
(Foto: Reprodução)
Gustavo Pinheiro hoje atua no Instituto Butantan Instituto Butantan O que para muitos é motivo de dor e correria nos quintais brasileiros, para o biólogo Gustavo Pinheiro, de 25 anos, é matéria-prima de esperança. Especialista em "venenos não convencionais" no Instituto Butantan, o jovem cientista transformou um medo paralisante de infância em uma busca ambiciosa: identificar no veneno da formiga lava-pés (Solenopsis) compostos capazes de combater células cancerígenas. 📱 Receba conteúdos do Terra da Gente também no WhatsApp "Eu era o menino que morria de medo de besouro, abelha e mariposa. O que gerava receio era o fato de serem muito diferentes de nós; um mamífero gera familiaridade, o inseto causa estranheza", relembra Gustavo. O ponto de virada veio com a compreensão da magnitude desses seres: as formigas sozinhas compõem cerca de um terço de toda a biomassa do planeta. "Entender que elas são as engenheiras do ecossistema me fez trocar o medo pelo carinho". Veja mais notícias do Terra da Gente: RAPOSA-VOADORA: Conheça o morcego 'gigante' ligado ao vírus Nipah e entenda os riscos para o Brasil ALERTA: Amazônia tem áreas 3ºC mais quentes e com 25% menos chuva, aponta estudo ELAS CANTAM: Estudo derruba mito centenário sobre mais de 100 espécies de sapos A "Biblioteca Química" e o diferencial técnico Gustavo estuda veneno de formigas contra o câncer Instituto Butantan Diferente das serpentes e aranhas, cujos venenos são majoritariamente compostos por proteínas e peptídeos, o veneno da formiga lava-pés é uma raridade bioquímica: 95% de sua composição é formada por alcaloides, substâncias químicas muito menores e com alto poder de penetração celular. Em sua pesquisa, Gustavo foca na Solenopsina A, um composto que já apresentou resultados promissores em estudos internacionais (como na China e EUA) e que agora ganha uma nova perspectiva no Brasil. "O veneno atua em duas frentes fundamentais: na inibição da angiogênese — impedindo que o tumor crie novos vasos sanguíneos para se alimentar — e na indução da apoptose, que é basicamente 'programar' a morte da célula cancerígena", detalha o biólogo. Atualmente, o trabalho de Gustavo consiste em traçar o perfil cromatográfico desse veneno, criando uma "impressão digital" que permite identificar cada molécula. No Brasil, entre 2007 e 2023, o sistema de saúde registrou 5.446 acidentes com essas formigas, com cinco óbitos. Os dados são do Ministério da Saúde. "Estudar isso não é apenas sobre o câncer, é sobre soberania. Países como a China já possuem soro contra múltiplas picadas; nós precisamos entender nossa própria biodiversidade para não dependermos de fora", alerta. Uma sociedade de "um só" organismo Para além das moléculas, Gustavo destaca a complexidade social das Solenopsis. Ele explica que a comunicação delas é baseada em uma "leitura química" constante. "Elas utilizam as antenas para interpretar feromônios e aminas. No formigueiro, a individualidade não existe; elas operam como um único organismo inteligente que sobrevive há 120 milhões de anos". Veja o que é destaque no g1: Veja os vídeos que estão em alta no g1 Essa organização reflete no papel ecológico: na nossa terra, elas não são invasoras (como nos EUA, onde causam prejuízos de US$ 8 bilhões anuais), mas sim aliadas na ciclagem de nutrientes e no controle de pragas agrícolas. "A gente só precisa respeitar o espaço delas", afirma. Ciência como ato de resistência social Gustavo venceu barreiras para atingir a ciência Instituto Butantan A trajetória de Gustavo acrescenta uma camada de profundidade à pesquisa. Criado próximo a uma comunidade em Guarulhos, ele conviveu com a realidade dura da periferia enquanto trabalhava como recepcionista e operador de SAC para cursar Biologia. "A ciência, como estrutura atual, é elitista e hostil. Ela foi feita para ficar trancada na academia", desabafa. Para ele, ocupar o Butantan e a USP não é apenas uma conquista pessoal, mas uma missão política. "Se um jovem da periferia me disser que sente que a ciência não é para ele, eu direi que ele tem razão. Mas é exatamente por isso que ele deve estar lá. Ocupar esses espaços é um ato de resistência necessário para tornar o conhecimento acessível. A gente não faz ciência para nós, fazemos para o mundo." Hoje, entre as análises de toxinas e as aulas semanais de forró, Gustavo Pinheiro simboliza a nova cara da pesquisa brasileira: técnica, resiliente e conectada com a realidade das ruas. O próximo passo é o mestrado em Ribeirão Preto (SP), onde ele espera transformar a dor da picada da lava-pés em um alento para pacientes oncológicos. Destaques da pesquisa: Composição do Veneno: 95% alcaloides (Solenopsinas) e 5% proteínas (alérgenos). Alvo Clínico: Inibição de vias de sinalização que sustentam o crescimento de tumores. Dados: 1/3 da biomassa terrestre de insetos é composta por formigas; no Brasil, milhares de acidentes anuais reforçam a necessidade de estudos toxicológicos. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2026/02/04/jovem-biologo-troca-o-medo-pela-ciencia-e-hoje-estuda-veneno-de-formiga-contra-o-cancer.ghtml


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