Exportação de gado vivo dobra em 3 anos, mesmo com críticas de ambientalistas ao transporte
19/02/2026
(Foto: Reprodução) Exportação de gado vivo por navio dobra em 3 anos
O transporte de gado vivo dobrou na comparação entre 2023 e 2025, mesmo sendo alvo de críticas por especialistas de bem-estar animal.
Apesar de as vendas serem menores do que as de carne bovina, que superou 3 bilhões de quilos no ano passado, a exportação de bovinos vivos bateu recorde em 2025, chegando a quase 4 milhões de quilos, segundo a Agrostat, plataforma do Ministério da Agricultura.
Uma das formas de fazer esse transporte é por navios. A maior parte desses bois é comprada por outros países para engorda e abate no exterior.
O processo é mais caro do que comprar a carne refrigerada, já que os animais ocupam mais espaço e o cliente ainda vai arcar com o restante do valor da produção.
Esse tipo de comercialização tem duas motivações: populações que preferem carne de animais abatidos recentemente, por considerá-la mais fresca; e a realização de protocolos religiosos específicos para o abate, aponta o presidente da Associação Brasileira dos Exportadores de Gado (Abeg), Lincoln Bueno.
Existe ainda o transporte por avião, mas ele é voltado para exportação de bovinos com foco no material genético, ou seja, para reprodução.
Exportação de gado vivo brasileiro dobrou em 3 anos
g1
Os principais clientes são os países da região do Magreb, formada por Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia, Mauritânia e Saara Ocidental. A viagem costuma levar cerca de 10 dias.
Apesar da lucratividade, o transporte marítimo de gado vivo é alvo de críticas de especialistas em bem-estar animal ouvidos pelo g1.
O caso mais recente aconteceu no final de 2025. Um navio com cerca de 3 mil vacas, vindo do Uruguai, ficou um mês encalhado na Turquia. Na ocasião, ambientalistas alertaram sobre dezenas de mortes e potenciais cadáveres de animais lançados ao mar.
O Brasil também já foi acusado de maus tratos. Em 2018, um navio ficou uma semana atracado no Porto de Santos (SP), após um embargo. A embarcação, que tinha 25 mil bois, tinha superlotação e excesso de fezes e urina. (Veja imagem abaixo).
Além disso, a permanência dos animais na cidade gerou intenso odor e poluição atmosférica. Depois, o navio seguiu viagem para a Turquia.
Segundo o Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais Federais Agropecuários (Anffa Sindical), a fiscalização é rígida e, ao sair do Brasil, todos os navios estão dentro das exigências da lei.
Gado exposto a fezes na embarcação NADA, em 2018
Mercy For Animals
Alguns países já proíbem esse tipo de comercialização, caso do Reino Unido e da Nova Zelândia.
Para Bueno, da Abeg, a exportação de gado vivo ajuda a regular o preço do boi no mercado interno, garantindo remuneração do criador mesmo em períodos de queda nos valores da carne.
"O pecuarista fica contente, por isso que, quando alguém reclama ou quer proibir, se juntam a Confederação Nacional da Agricultura, a Sociedade Rural Brasileira... Entram todos ali [na discussão] e não deixam [proibir]", afirma.
Principais compradores de gado vivo do Brasil
Arte g1
Como é a viagem?
🚢Capacidade: os navios usados no transporte de gado vivo variam de tamanho e podem levar de 4 mil a até 30 mil animais, segundo Bueno. O mais comum é embarcar bezerros com cerca de 300 kg, porque o manejo é mais fácil.
Navio NADA, atracado no Porto do Rio Grande (RS), com capacidade de 26 mil animais, em janeiro de 2026
Mercy For Animals
🌱Alimentação: são servidos feno ou farelos, por serem mais fáceis de transportar no navio. Por causa da limitação de espaço, os animais comem menos do que em confinamento em fazendas, explica Aline Sant'Anna, professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp), especializada em transporte marítimo de gado vivo.
🌬️Ventilação: nos decks superiores, ela é natural. Nos inferiores, é preciso usar um sistema de exaustão, similar ao de garagens subterrâneas, por exemplo. A ventilação é necessária porque o gado consome muita água e, consequentemente, urina com frequência. Segundo Bueno, da Abeg, o cheiro de ureia nos decks inferiores é muito forte.
Esse mecanismo é determinado pela Instrução Normativa 46 de 2018, do Ministério da Agricultura e Pecuária.
🐂Grupos: os animais costumam ser separados em baias com até 10 bois, para limitar a movimentação e reduzir o risco de desequilíbrio da embarcação. Em geral, ficam juntos animais que já conviviam na propriedade antes do embarque, para evitar brigas e também porque bovinos são sociáveis.
Baias com gado dentro do navio para transporte marítimo
Divulgação / Abeg
🥼Saúde: normalmente, os navios contam com um médico veterinário e vaqueiros, responsáveis pela alimentação e pela limpeza das áreas onde fica o gado.
É comum que ocorram de uma a três mortes por viagem, apesar de não existirem dados oficiais, afirma Gisele Leite Camargo, coordenadora do Conselho de Delegados Sindicais do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais Federais Agropecuários (Anffa Sindical).
"O que eu considero um índice bastante baixo, quando você está pensando em 10 mil, 12 mil, 20 mil animais", afirma.
Ela explica que as mortes acontecem porque o boi vai estar em um ambiente estranho, então fica estressado e com menos imunidade.
Leia também: Já viu um touro voar? Entenda como mais de 300 viajaram de avião do Brasil ao Senegal
O que diz quem é contra
Uma das críticas é que o gado não tem espaço suficiente para viajar com conforto. Esse espaçamento é determinado pela Instrução Normativa 46 de 2018, do Ministério da Agricultura e Pecuária.
Segundo a norma, a quantidade de animais é determinada a partir do peso. Considerando um bezerro de 300 kg, que é o mais comum a embarcar em navios, a lei determina que seja um por metro quadrado.
Na comparação com a criação em confinamento, o espaço é bem inferior. Segundo Sant'Anna, da Unesp, a média nesses sistemas é de 10 metros quadrados por boi.
No navio NADA, em 2018, animais tinham menos de 1 metro quadrado de espaço.
Mercy For Animals
Outro ponto levantado é a circulação de ar precária nos decks, principalmente no inferior, deixando um alto nível de umidade e amônia.
A amônia é gerada pela urina e pelas fezes, eliminadas com frequência pelos animais. Segundo Sant’Anna, um boi de cerca de 300 kg consome em torno de 40 litros de água por dia.
A especialista afirma ainda que alguns navios não foram originalmente projetados para o transporte de carga viva, sendo adaptações de embarcações antigas. Nesses casos, o risco de falhas no sistema de exaustão é maior.
Por causa do cheiro intenso, a limpeza é considerada fundamental durante as viagens. Mesmo assim, segundo a professora, não há estrutura suficiente para drenar todos os dejetos produzidos.
"E o bovino não é um animal que gosta de se deitar sobre as próprias fezes. Invariavelmente, ele vai acabar deitando em cima delas, em cima da urina. Estar de acordo com a legislação não é sinônimo de conforto para o animal", afirma.
Esse acúmulo de fezes foi observado em uma embarcação que saiu do Rio Grande do Sul rumo ao Iraque, em 2024. Ela fez uma parada na África do Sul e deixou a Cidade do Cabo com um "fedor inimaginável", segundo o jornal inglês The Guardian.
Representantes de um conselho sul-africano que combate a crueldade contra animais entraram no navio e encontraram bois mortos, doentes e cobertos de fezes, classificando a situação como "abominável".
A professora afirma ainda que existem navios que jogam os resíduos no mar, o que causa grande impacto ambiental.
Alguns animais enfrentam também dificuldades de adaptação ao novo ambiente, desenvolvem problemas gastrointestinais e deixam de se alimentar. Outros podem brigar e se machucar por causa do espaço reduzido.
Bueno, presidente da Abeg, afirma que as exportadoras brasileiras seguem a legislação vigente.
"Agora, se tem alguém que não fez [como na lei] ou se alguém fez algo diferente, isso em todas as atividades pode ser que tenha, mas é muito difícil", afirma.
Camargo, do Anffa Sindical, também afirma que a fiscalização é rigorosa e que os navios que deixam o Brasil cumprem as exigências legais.
"Eu não posso garantir para você que todos os navios são excelentes. A gente ouve que há navios muito ruins, principalmente que operam na Ásia. A gente não tem um grande problema desses navios aportando aqui no país", afirma a coordenadora.
Saiba também: Por que não existe salmão no Brasil?
Embarque do gado no navio NADA, atracado no Porto do Rio Grande (RS), com capacidade de 26 mil animais, em janeiro de 2026
Mercy For Animals
Como é a fiscalização?
Apesar de os navios pertencerem a empresas estrangeiras, eles precisam seguir regras brasileiras, além de atender às exigências dos países compradores.
Para garantir que o bovino está saudável, antes de ir para o porto, ele passa por um Estabelecimento de Pré Embarque (EPE), que funciona como uma fazenda de confinamento.
No local, o gado passa por exames, recebe vacinas e medicamentos, se necessário, e pode ficar em quarentena por até 30 dias, conforme as regras do país importador. Bois doentes não podem embarcar.
O rebanho só deixa a fazenda depois que o navio é vistoriado e aprovado, evitando que os animais enfrentem o estresse do transporte rodoviário sem garantia de embarque.
Ao final da viagem, os importadores devem apresentar relatórios às autoridades locais e brasileiras, informando o tempo de trajeto e se houve mortes ou doenças.
Mesmo assim, a coordenadora do Anffa explica que, após a saída do navio, ele deixa o território nacional e o Brasil perde o poder de fiscalização.
Veja como é o embarque do gado nos navios:
Porto de Rio Grande (RS) faz embarque recorde de animais vivos para exportação
Ao menos 27 mil bois embarcados no navio atracado em Santos, SP, em 2017.
Renan Fiuza/G1
Leia também:
Uso de chapéu no campo não foi proibido; veja o que diz a lei
Os destinos do pênis bovino: do prato afrodisíaco na China a petiscos para pets no Brasil