Experimento inédito sugere que primatas podem ter capacidade de imaginação
06/02/2026
(Foto: Reprodução) Macaco brinca de faz de conta
Reprodução
Perceber quando uma criança começa a brincar de faz-de-conta costuma ser um marco do desenvolvimento. Por volta dos dois anos, ela já transforma o quarto em castelo e conversa com bonecos invisíveis. Por algum tempo, esse tipo de imaginação foi tratada como um traço exclusivamente humano. Agora, cientistas realizaram o primeiro estudo indicando que os macacos também têm a capacidade de brincar de faz de conta.
A pesquisa partiu de uma pergunta simples e difícil ao mesmo tempo: um macaco consegue “fingir” que algo é real sabendo que não é? Estariam eles próximos dos humanos nesse ponto?
Para tentar responder, os pesquisadores adaptaram testes clássicos da psicologia infantil e os aplicaram a Kanzi, um bonobo criado em cativeiro e conhecido por suas habilidades incomuns de comunicação com humanos.
Ao longo da vida, Kanzi aprendeu a usar símbolos gráficos para se expressar, combinando sinais para criar novos significados — comportamentos raros mesmo entre grandes primatas.
A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade Johns Hopkins e da Universidade de St. Andrews e publicado nesta semana na revista Science, uma das mais renomadas em ciência.
Como o estudo foi feito?
O experimento mais emblemático foi uma espécie de “festa do suco”.
Diante de Kanzi, os pesquisadores fingiam despejar suco de uma jarra em dois copos e, em seguida, simulavam esvaziar apenas um deles.
Quando perguntado qual copo queria, o bonobo escolheu, em 68% das vezes, aquele que supostamente ainda continha o suco imaginário.
Para descartar a hipótese de confusão entre o que era real e o que era fingido, o teste foi repetido com suco de verdade.
Nesse cenário, Kanzi escolheu o copo com líquido real em quase 80% das tentativas. Para os autores, o resultado indica que ele conseguia diferenciar entre suco verdadeiro e suco imaginário.
Ele fez o mesmo com uvas artificiais colocadas em potes. Ao não ter nada no pote, ele também escolhia aquele em que os pesquisadores colocaram a uva simulada.
O que é realmente empolgante neste trabalho é que ele sugere que as raízes da imaginação não são exclusivas da nossa espécie.
No entanto, há uma limitação: Kanzi cresceu em contato intenso com humanos, o que dificulta saber se esse tipo de habilidade estaria presente em outros bonobos ou se é resultado de uma criação muito específica.
Kanzi morreu no ano passado, aos 44 anos, meses depois dessa pesquisa. Apesar disso, seu legado científico permanece.
A interpretação, porém, não é unânime. O psicólogo comparativo Michael Tomasello, da Universidade Duke, que não participou da pesquisa, avalia que ainda há uma diferença importante entre reagir corretamente a uma encenação e realmente sustentar uma ilusão imaginária. Para ele, seria mais convincente observar o animal iniciando espontaneamente o faz-de-conta, como fingir despejar água em um recipiente.