Existe um horário-limite para tomar café sem prejudicar o sono? Veja o que diz a ciência

  • 04/11/2026
(Foto: Reprodução)
Existe um horário-limite para tomar café sem prejudicar o sono? Veja o que diz a ciência Existe um horário a partir do qual tomar café pode prejudicar o sono? E será que deixar de consumir a bebida depois das 17h ou 18h é suficiente para garantir uma noite de descanso? Embora a recomendação de evitar cafeína no fim da tarde seja comum, não existe um horário-limite universal capaz de impedir seus efeitos sobre o sono. Uma revisão científica que reuniu 32 estudos realizados em humanos mostra que a resposta à cafeína varia de pessoa para pessoa e depende de fatores como quantidade consumida, horário de ingestão, idade, características genéticas e hábitos de consumo. A pesquisa também revelou um efeito que pode passar despercebido: mesmo depois que a pessoa adormece, a cafeína pode manter o cérebro em um estado de maior ativação, reduzindo a atividade elétrica associada ao sono profundo. Existe um horário-limite para tomar café sem prejudicar o sono? Veja o que diz a ciência Adobe Stock Isso significa que alguém pode dormir o número habitual de horas e, ainda assim, apresentar alterações cerebrais relacionadas à profundidade e à recuperação do sono. Segundo o neurologista Carlos Maurício Oliveira de Almeida, professor adjunto de Neurologia da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e presidente da Academia Brasileira do Sono – Regional Amazonas (ABS-AM), a orientação prática é evitar café e outras bebidas cafeinadas nas seis a oito horas que antecedem o horário de dormir. Mas essa recomendação não representa uma garantia de que a substância deixará de interferir no descanso. Saiba quais os limites de consumo de cafeína para pessoas com mais de 60 anos Almeida explica que a meia-vida média da cafeína após a administração oral é entre 6 e 8 horas. E essa meia-vida corresponde ao período necessário para que a quantidade da substância no organismo seja reduzida aproximadamente pela metade. A neurologista pediátrica e médica do sono Letícia Soster, responsável pelo serviço de sono infantil do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), ressalta que o consumo pela manhã tende a ter pouco efeito sobre o sono profundo da noite, embora existam diferenças individuais de sensibilidade. A revisão, no entanto, identificou experimentos em que alterações na atividade cerebral foram registradas mesmo quando a cafeína havia sido consumida muitas horas antes de dormir. Os resultados reforçam que o horário importa, mas não é o único fator que determina o impacto da cafeína sobre o sono. O que a ciência descobriu sobre o efeito da cafeína durante o sono? A revisão sistemática analisou pesquisas publicadas entre janeiro de 1980 e janeiro de 2026 que investigaram os efeitos da cafeína sobre a atividade elétrica cerebral durante o sono. Inicialmente, os pesquisadores identificaram 112 artigos. Depois da seleção dos trabalhos que atendiam aos critérios estabelecidos, 32 estudos foram incluídos na análise. O principal resultado foi a redução da atividade cerebral de baixa frequência durante o sono não REM (NREM), especialmente das chamadas ondas lentas e das frequências delta. Essas ondas são consideradas importantes indicadores da profundidade do sono e da pressão acumulada para dormir. Ao mesmo tempo, vários estudos identificaram aumento de frequências cerebrais mais rápidas, incluindo atividades sigma e beta. A combinação desses resultados sugere que a cafeína pode produzir um padrão de atividade cerebral mais próximo daquele observado durante a vigília, mesmo quando a pessoa está efetivamente dormindo. Almeida explica que a substância parece afetar principalmente o sono NREM, composto pelos estágios N1, N2 e N3. "A cafeína parece aumentar a atividade elétrica cerebral, reduzindo a atividade lenta, assemelhando-se àquelas encontradas em situações em que há um estado de maior alerta/vigília", afirma o médico. Segundo ele, isso sugere um sono fisiologicamente menos profundo e potencialmente menos restaurador. Letícia Soster faz uma ressalva importante sobre a interpretação desses resultados: a redução das ondas lentas não significa que o cérebro esteja literalmente acordado. "Então a cafeína reduz a quantidade e a amplitude das ondas lentas no sono N3. Isso não faz ele ficar parecido com a vigília, mas ele é menos lento e, portanto, 'menos profundo' do que o N3 de quem não toma cafeína", explica. A especialista também destaca que a percepção da qualidade do sono tem um componente subjetivo. Uma pessoa pode apresentar todas as fases do sono e, ainda assim, considerar que dormiu mal. Outra pode ter um sono fragmentado e acordar com a sensação de ter descansado. Por isso, as alterações identificadas nos exames não permitem determinar automaticamente como cada indivíduo se sentirá no dia seguinte. Afinal, até que horas é possível tomar café? A resposta depende principalmente de três fatores: a quantidade de cafeína ingerida, o intervalo entre o consumo e o horário de dormir e a sensibilidade individual. A recomendação apresentada por Almeida é evitar bebidas cafeinadas nas seis a oito horas anteriores ao sono. Confira abaixo exemplos de horário para a última ingestão, considerando esse intervalo: Consumo de cafeína • Horários ilustrativos calculados com base na orientação de seis a oito horas. Não representam limites universais nem garantem ausência de efeitos. Os estudos analisados mostram por que não é possível estabelecer uma regra única. Em alguns experimentos, os participantes receberam doses entre 100 e 200 miligramas de cafeína perto da hora de dormir. Outros utilizaram quantidades maiores, chegando a 300 ou 400 miligramas. Um dos ensaios realizados em ambiente domiciliar comparou os efeitos de doses de 100 e 400 miligramas administradas 12, 8 ou 4 horas antes de dormir. Nesse experimento, a perturbação consistente do sono foi observada apenas com a dose mais elevada. Por outro lado, um dos trabalhos analisados administrou 200 miligramas de cafeína pela manhã e encontrou alterações no eletroencefalograma durante o sono daquela noite, quando restavam concentrações baixas da substância no organismo. Os resultados indicam que a distância entre o consumo e o horário de dormir pode reduzir a probabilidade de interferência, mas não elimina necessariamente todos os efeitos. Soster ressalta que a cafeína possui uma ação temporária, enquanto permanece circulando no organismo. "Então, se você toma de manhã, você vai ter pouco efeito sobre o N3 da noite", afirma. Isso não contradiz os resultados que identificaram alterações após o consumo matinal. Os estudos mostram que o efeito pode ocorrer em determinadas condições, enquanto a especialista destaca que ele tende a ser menos relevante quando a ingestão ocorre muitas horas antes de dormir. Por que algumas pessoas tomam café à noite e conseguem dormir normalmente? A diferença está, em parte, na maneira como cada organismo responde à cafeína. Segundo Almeida, fatores genéticos, metabolismo, idade e consumo habitual influenciam a sensibilidade à substância. Uma das variações estudadas envolve o gene ADORA2A, relacionado aos receptores de adenosina, molécula que participa da regulação da necessidade de dormir. "Assim, duas pessoas que consomem a mesma quantidade podem apresentar respostas bastante diferentes, inclusive na qualidade do sono", explica. A revisão científica encontrou evidências dessa diferença em experimentos que analisaram a atividade cerebral durante o sono NREM. Em um deles, o aumento da atividade beta provocado pela cafeína variou de acordo com o genótipo dos participantes. Soster também destaca a influência do cronotipo, característica relacionada à preferência individual por horários de dormir e acordar. Segundo a neurologista, existem perfis mais e menos sensíveis aos agentes estimulantes, e essa sensibilidade pode estar relacionada ao fato de uma pessoa ser mais matutina ou vespertina. Outro aspecto importante é o consumo habitual. Pessoas que tomam café diariamente podem desenvolver tolerância a alguns efeitos da substância e deixar de perceber dificuldades para dormir. Isso, porém, não significa necessariamente que a cafeína tenha deixado de agir sobre o cérebro. "Com o consumo habitual, algumas pessoas deixam de perceber dificuldades para dormir. Entretanto, as alterações neurofisiológicas descritas na atividade elétrica cerebral e na arquitetura do sono podem persistir", afirma Almeida. A revisão encontrou resultados semelhantes: determinados efeitos mais evidentes sobre a estrutura do sono podem diminuir com o consumo frequente, enquanto alterações mais sutis na atividade elétrica cerebral permanecem. É possível dormir oito horas e ainda assim ter um sono de pior qualidade? Sim. De acordo com os especialistas, a duração do sono não é suficiente para determinar sua qualidade. A revisão mostrou que a cafeína pode modificar a atividade elétrica cerebral mesmo quando o tempo total de sono ou a distribuição dos estágios não apresentam alterações expressivas. Para identificar essas diferenças, os pesquisadores analisaram exames de eletroencefalografia (EEG), que registram a atividade elétrica cerebral por meio de eletrodos posicionados no couro cabeludo. Enquanto a avaliação convencional do sono permite identificar estágios, duração, eficiência e despertares, análises mais detalhadas do EEG conseguem detectar alterações nas frequências das ondas cerebrais. Assim, uma pessoa pode apresentar um padrão aparentemente normal de sono e, ao mesmo tempo, ter alterações fisiológicas associadas ao consumo de cafeína. "A duração do sono não é o único indicador de qualidade", afirma Almeida. Segundo ele, essas alterações podem se manifestar como sensação de sono não reparador, cansaço ao despertar, sonolência durante o dia e dificuldade de concentração. Soster explica que o sono profundo, identificado como estágio N3, participa de processos importantes de recuperação. É nessa fase que ocorrem mecanismos relacionados à consolidação de memórias e à recuperação muscular. Por isso, a redução da atividade associada ao sono profundo poderia, em tese, afetar funções cognitivas, memória e desempenho no dia seguinte. "É como se você ficasse com o sono mais superficial", afirma. A especialista ressalta, entretanto, que a percepção individual pode ser diferente. O aumento do estado de alerta proporcionado pela cafeína pode fazer com que algumas pessoas não percebam eventuais efeitos negativos sobre o descanso. Isso significa que os resultados da revisão apontam alterações fisiológicas, mas não permitem afirmar que todas as pessoas que consomem cafeína terão prejuízos perceptíveis na memória ou no desempenho. Como a cafeína age no cérebro? Para compreender os efeitos da cafeína, é necessário entender o papel da adenosina. Ao longo do dia, conforme uma pessoa permanece acordada, essa substância participa do aumento gradual da pressão para dormir. Esse processo está relacionado ao acúmulo da necessidade de descanso, à sensação de cansaço e à redução do estado de alerta. A cafeína interfere diretamente nesse mecanismo. Em doses habitualmente consumidas na alimentação, a substância bloqueia principalmente os receptores de adenosina A1 e A2A no cérebro. Com essa sinalização reduzida, a sensação de sonolência diminui e a pessoa consegue permanecer mais alerta. Soster explica que a adenosina está relacionada ao metabolismo energético do organismo. Ao longo do dia, o corpo utiliza moléculas de ATP, sigla para adenosina trifosfato, envolvidas no fornecimento de energia às células. Nesse processo, a adenosina participa da sinalização associada ao cansaço. A cafeína atua bloqueando seus receptores, mas não elimina a necessidade de recuperação. "Então a cafeína vai disfarçar o cansaço. Ela não reduziu a sua adenosina. Ela não tirou o seu cansaço", explica a neurologista. Em outras palavras, sentir-se desperto depois de uma xícara de café não significa que o organismo tenha recuperado a energia ou compensado uma noite mal dormida. Cafeína pode atrapalhar a recuperação depois de uma noite em claro? A revisão encontrou evidências de que a cafeína também pode modificar a resposta cerebral ao sono perdido. Em alguns experimentos, os participantes permaneceram acordados por períodos de 27 a 40 horas. Em um deles, a privação chegou a 64 horas. Depois desse período, os pesquisadores analisaram o sono de recuperação. Normalmente, quando uma pessoa passa muito tempo acordada, a pressão acumulada para dormir provoca um aumento da atividade de ondas lentas quando ela finalmente adormece. Esse fenômeno é conhecido como rebote de ondas lentas e representa uma resposta do organismo à privação de sono. Os estudos analisados mostraram que a cafeína pode atenuar esse aumento esperado. O resultado sugere que a substância interfere não apenas na capacidade de permanecer acordado, mas também em mecanismos fisiológicos envolvidos na recuperação após períodos prolongados de vigília. Soster explica que o consumo frequente de café para combater o cansaço pode favorecer um ciclo difícil de interromper. A pessoa dorme mal, acorda cansada e utiliza cafeína para permanecer alerta. Se o consumo prejudicar novamente o descanso, a necessidade de recorrer ao estimulante pode continuar no dia seguinte. "Se você está precisando muito para se manter acordado, se você não recupera o seu sono, você vai sempre precisar de muito. Você não vai sair desse ciclo", afirma. Almeida também reforça que a cafeína reduz temporariamente a sensação de sonolência, mas não substitui a necessidade biológica de dormir. Se consumida em horários inadequados, pode prejudicar o sono noturno e favorecer mais cansaço e maior consumo no dia seguinte. Qual quantidade de cafeína pode prejudicar o sono? Além do horário, a dose ingerida é determinante para avaliar os possíveis efeitos. Segundo Almeida, estudos mostram que quantidades entre 100 e 200 miligramas já podem modificar a atividade cerebral durante o sono, principalmente quando consumidas perto do horário de dormir. Para comparação, o neurologista informa que uma xícara de café expresso contém aproximadamente 60 a 80 miligramas de cafeína. Isso significa que a ingestão de mais de uma xícara pode alcançar quantidades utilizadas em alguns dos experimentos. Mas o especialista ressalta que a resposta depende da sensibilidade individual. "Não existe, porém, uma dose totalmente isenta de efeitos para todas as pessoas", afirma. A revisão científica também identificou diferenças importantes entre os estudos. Enquanto alguns encontraram alterações com doses moderadas, outros observaram efeitos mais consistentes apenas com quantidades elevadas. Essas diferenças dificultam a definição de uma quantidade única que possa ser considerada segura para o sono de toda a população. Outro ponto importante é que o consumo de cafeína não se limita ao café. A substância também está presente em bebidas como chá pretos, chá verde, chá-mate, refrigerantes à base de cola e em bebidas estimulantes. Por isso, avaliar apenas o número de xícaras de café consumidas pode não representar a quantidade total de cafeína ingerida ao longo do dia. A neurologista ressalta que quanto maior o consumo, maior a possibilidade de interferência na sinalização da adenosina. "É muito importante a gente saber o quanto a gente está bebendo de café, o horário que a gente está bebendo esse café e sempre avaliar o quanto isso está nos reduzindo de tempo total de sono, o quanto a gente continua acordando cansado", afirma. E o sono REM? Também é afetado pela cafeína? Embora os efeitos sobre o sono NREM tenham sido mais consistentes, os pesquisadores também investigaram possíveis alterações durante o sono REM. Essa fase está associada ao período em que os sonhos são mais frequentes. Os resultados, porém, foram menos uniformes. Alguns estudos não identificaram mudanças importantes, enquanto outros observaram atraso no início do sono REM ou alterações mais sutis nas frequências cerebrais. Por isso, os autores consideraram as evidências menos consistentes do que aquelas encontradas para o sono NREM. A principal conclusão da revisão permanece relacionada à redução das ondas lentas, especialmente aquelas associadas ao sono profundo. O que ainda não se sabe sobre os efeitos da cafeína? Apesar de reunir resultados de 32 estudos, a revisão apresenta limitações importantes. Grande parte das pesquisas foi realizada com adultos jovens, saudáveis e, frequentemente, homens. Alguns experimentos clássicos tinham amostras pequenas, com apenas 8 a 22 participantes. Embora estudos mais recentes tenham ampliado a participação de mulheres e de outras faixas etárias, os homens jovens continuaram predominando entre os voluntários. Adolescentes, idosos, pessoas com distúrbios do sono e indivíduos que consomem grandes quantidades de cafeína foram investigados com menor frequência. Isso significa que não é possível generalizar a intensidade e a duração dos efeitos para toda a população. Outra limitação foi a diferença entre os protocolos utilizados. Os estudos avaliaram quantidades variadas de cafeína, horários diferentes de consumo, características distintas dos participantes e métodos diversos de análise. Mesmo assim, os autores consideraram consistente o principal padrão identificado: a cafeína reduz a atividade cerebral lenta durante o sono NREM e pode aumentar sinais de ativação cerebral. Então, qual é a melhor orientação para quem não quer prejudicar o sono? Os especialistas concordam que o consumo de cafeína deve considerar não apenas o horário, mas também a quantidade ingerida e a resposta de cada pessoa. A orientação prática de Almeida é evitar café e outras bebidas cafeinadas nas seis a oito horas anteriores ao horário de dormir. O neurologista também recomenda manter uma rotina regular de sono, praticar atividade física, limitar a quantidade diária de cafeína e restringir o consumo no fim da tarde. Caso existam dificuldades persistentes para dormir, ele orienta procurar avaliação médica. Soster destaca a importância de observar se o consumo está associado à redução do tempo total de sono ou à sensação frequente de cansaço ao despertar. A revisão científica reforça essa necessidade de avaliação individual, já que uma mesma quantidade pode provocar efeitos diferentes dependendo das características de cada organismo. A conclusão é que não existe uma hora universal para a última xícara de café. Evitar cafeína nas horas que antecedem o sono é uma orientação prática, mas não uma garantia de que a substância deixará de atuar sobre o cérebro. E os estudos acrescentam um alerta: mesmo quando a pessoa consegue adormecer e dormir durante várias horas, a cafeína pode continuar modificando sinais cerebrais relacionados à profundidade e à recuperação do sono.

FONTE: https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/11/04/existe-um-horario-limite-para-tomar-cafe-sem-prejudicar-o-sono-veja-o-que-diz-a-ciencia.ghtml


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