Estudo não encontra relação entre antidepressivos na gravidez e autismo
15/05/2026
(Foto: Reprodução) Estudo não encontra relação entre antidepressivos na gravidez e autismo
Reprodução/TV Globo
O uso de antidepressivos durante a gravidez não aumenta de forma clara o risco de autismo ou outros transtornos do neurodesenvolvimento em crianças, segundo uma análise que reuniu dados de mais de 25 milhões de gestações. O estudo foi publicado na revista científica The Lancet Psychiatry.
Os resultados contrariam declarações recentes do secretário de Saúde dos Estados Unidos, Robert F. Kennedy Jr., que afirmou, sem apresentar evidências, que antidepressivos poderiam aumentar o risco de autismo em fetos. Kennedy também já associou vacinas ao transtorno, teoria rejeitada pela comunidade científica.
A pesquisa analisou 37 estudos anteriores, envolvendo quase 650 mil gestações com uso de antidepressivos e cerca de 25 milhões sem exposição aos medicamentos.
Inicialmente, os pesquisadores observaram uma leve elevação nos diagnósticos de autismo e TDAH em filhos de mulheres que usaram antidepressivos durante a gravidez. No entanto, a associação perdeu força — ou deixou de ser estatisticamente significativa — após os cientistas considerarem fatores como histórico familiar, genética e a saúde mental das mães.
“Nosso estudo fornece evidências tranquilizadoras de que antidepressivos comumente usados não aumentam o risco de transtornos do neurodesenvolvimento, como autismo e TDAH em crianças”, afirmou o líder da pesquisa, o médico Wing-Chung Chang, da Universidade de Hong Kong.
O professor emérito de obstetrícia e ginecologia da Universidade de Leeds, James Walker, que não participou do estudo, destacou que os resultados podem ser mal interpretados caso não sejam considerados outros fatores envolvidos.
“Se você simplesmente comparar crianças cujas mães tomaram antidepressivos com crianças cujas mães não tomaram, pode encontrar diferenças. Mas isso não significa que o medicamento tenha causado essas diferenças”, afirmou.
Outros fatores podem explicar riscos
Os pesquisadores também identificaram maior incidência de autismo e TDAH em crianças cujos pais usaram antidepressivos durante a gestação da mãe, além de casos em que as mulheres utilizaram os medicamentos antes — mas não durante — a gravidez.
Segundo os cientistas, isso reforça a hipótese de que fatores familiares e genéticos, e não necessariamente os antidepressivos, expliquem os riscos observados.
“A medicação do pai obviamente não chega ao bebê no útero. Esse padrão é difícil de explicar sem considerar características familiares compartilhadas”, disse Walker.
Os autores também observaram que doses mais altas de antidepressivos não aumentaram os riscos para as crianças, o que enfraquece ainda mais a hipótese de relação direta entre os medicamentos e os transtornos.
Entre mulheres com transtornos mentais mais graves, dois antidepressivos tricíclicos mais antigos — amitriptilina e nortriptilina — apareceram associados a maior risco de autismo e TDAH nos filhos. Segundo os pesquisadores, esses medicamentos costumam ser usados em casos de depressão resistente, o que indica quadros psiquiátricos mais complexos e potencialmente ligados aos riscos observados.
Os cientistas ressaltaram ainda que antidepressivos não devem ser interrompidos abruptamente durante a gravidez apenas com base em estudos inconclusivos.
“A interrupção repentina pode agravar a depressão materna, que por si só já está associada a desfechos negativos para mães e filhos”, afirmaram os autores.
A obstetra Anita Banerjee, do King's College London, que também não participou da pesquisa, lembrou que transtornos mentais são a principal causa de mortalidade materna no Reino Unido no ano seguinte ao parto. Segundo ela, problemas de saúde mental sem tratamento adequado também representam riscos importantes para mães e bebês.