Do endividamento à imagem ruim: os problemas que o agro quer ver resolvidos pelo próximo presidente
04/10/2026
(Foto: Reprodução) Agronegócios puxou alta do pib no 1º trimestre
YASUYOSHI CHIBA/AFP
O próximo presidente vai herdar problemas do agronegócio que não cabem em um mandato de quatro anos, segundo os especialistas entrevistados pelo g1.
A Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) propõe cinco políticas públicas para enfrentar gargalos que vão do financiamento rural e dos eventos climáticos extremos à infraestrutura, à dependência de insumos importados e à abertura de mercados no exterior.
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As propostas são:
Política nacional de financiamento, seguro rural e resiliência climática da agroindústria: criação de um marco plurianual para ampliar os recursos destinados ao setor, incluindo um Fundo Nacional de Catástrofes Climáticas.
Política industrial para fortalecer as cadeias estratégicas da agroindústria brasileira: estímulo à produção de insumos, para garantir a competitividade da indústria brasileira, eliminando o "passivo regulatório" para agilizar a aprovação de novas tecnologias.
Política nacional de governança, planejamento e financiamento de infraestrutura agroindustrial: modernização e harmonização dos processos de licenciamento e autorização de empreendimentos de infraestrutura.
Política nacional de comunicação, educação e valorização da agroindústria: ações permanentes para ampliar o conhecimento sobre a contribuição do setor para a segurança alimentar, a sustentabilidade, a inovação e o desenvolvimento econômico.
Política nacional de inserção internacional e defesa da competitividade brasileira: enfrentamento de barreiras tarifárias e não tarifárias, com atuação coordenada entre governo, instituições de pesquisa e setor produtivo.
Agora no g1
Especialistas ouvidos pelo g1 dizem que os gargalos são reais, mas têm dimensões diferentes e exigem políticas de longo prazo, além da participação da iniciativa privada. Alguns já são alvo de ações do governo atual, mas ainda apresentam problemas de execução ou escala.
Entenda o cenário de cada um dos cinco pontos e quais caminhos para enfrentá-los.
Financiamento e seguro rural
Para Felippe Serigati, pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV) Agro, o principal gargalo do financiamento e do seguro rural é o custo. Segundo ele, os juros permanecem elevados devido ao endividamento dos produtores e ao aumento dos pedidos de recuperação judicial.
Por este motivo, os bancos estão mais seletivos na concessão de crédito.
Leandro Gilio, pesquisador do Insper Agro Global, explica que a inadimplência dos produtores acontece por causa dos prejuízos acumulados em safras seguidas, provocados por problemas climáticos, juros altos e custos elevados de produção.
"Isso vai tendo um efeito em cadeia, prejudicando os investimentos antes da produção. Por isso que, nesse momento, o governo tem de agir de uma maneira um pouco mais forte para tentar evitar que esse processo acabe consumindo os investimentos no setor", diz.
Atualmente, apenas 3% da produção agropecuária está coberta por seguro, segundo o pesquisador.
Para Serigati, da FGV, o ajuste também precisa envolver credores e devedores. "Os credores vão demandar algum tempinho para que eles possam ajustar novamente suas carteiras de crédito rural. Do lado dos tomadores desse crédito, eles têm de ter as contas mais bem organizadas, para conseguir sinalizar as suas reais condições de pagar", afirma.
Além disso, ele explica que algumas instituições financeiras evitam esse tipo de crédito por causa do custo para operá-lo, gerado pela taxa Selic e pela percepção de risco, principalmente diante da instabilidade climática.
Na quarta-feira (30), o Diário Oficial da União publicou a lei 15.526/2026, que funcionará como um novo marco regulatório para o seguro rural no país. Ele já atende diversos dos pedidos feitos pela Abag, como a a regulamentação do Fundo de Catástrofe, voltado para os prejuízos causados pelo clima.
Além disso, a nova lei também determina que as despesas com a subvenção ao prêmio do seguro rural tenham caráter obrigatório. Para a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), isso vai vai evitar o contingenciamento de recursos e traz uma blindagem no orçamento.
Até então, o seguro rural não era uma despesa obrigatória e era uma das primeiras áreas a sofrer cortes, explica Serigati, pesquisador da FGV.
Segundo Gilio, muitas vezes, critérios previstos nas políticas de crédito rural não são cumpridos e que até linhas financiadas pelo Plano Safra são de difícil acesso para o produtor. O pesquisador diz que o governo precisa investir no setor, por se tratar de uma atividade estratégica para a economia do país.
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Cadeias estratégicas
Para os especialistas, a dependência de fertilizantes importados é, hoje, o principal problema dentro desse tema. O Brasil importa cerca de 80% dos adubos químicos que consome, e parte relevante dos fornecedores está em países envolvidos em guerras ou em rotas afetadas por conflitos, como o Estreito de Ormuz.
O Brasil já conta com o Plano Nacional de Fertilizantes, que busca aumentar a independência do país nessa área. No entanto, seus resultados são de longo prazo. Além dos investimentos, é necessário que haja fontes de potássio, fósforo e nitrogênio disponíveis para exploração.
"A gente tem matéria-prima para alguns produtos, mas, para outros, a gente não tem. Vamos continuar dependendo de um certo volume de importação", diz Carlos Eduardo de Freitas Vian, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz Esalq-USP.
Enquanto o plano não é concretizado, o Brasil deveria diversificar os fornecedores, para ficar menos exposto aos conflitos, afirma Serigati, da FGV. A Abag também pede para aumentar a fabricação de maquinários no Brasil. Contudo, o pesquisador afirma que o país até exporta esses itens.
Para Vian, a principal dependência está nos componentes dos maquinários, como os chips. Na avaliação dele, é inviável trazer esse tipo de fabricação para o Brasil, já que o país não teria demanda suficiente.
O documento da Abag também cita um "passivo regulatório" que atrasa a aprovação de novas tecnologias. Nesse caso, o professor da Esalq acredita que, de fato, isso acontece na aprovação de defensivos químicos, por causa da realização de testes de segurança, tanto ambientais, como para a saúde.
"Porque quando você agiliza esses processos, você pode estar deixando de visualizar alguma outra coisa. Então é um problema mesmo que, para mim, é de difícil solução", afirma.
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Infraestrutura agroindustrial
O Brasil enfrenta um grande desafio quando se fala de infraestrutura para que em apenas um mandato presidencial consiga se resolver, afirma Serigati.
"Estamos falando de, em um prazo de quatro anos, um aumento de quase 100 milhões de toneladas, equivalente à safra da Argentina. A infraestrutura tem muita dificuldade de crescer no mesmo ritmo que a produção agropecuária", diz.
Entre os principais gargalos logísticos estão a baixa capacidade de armazenamento e as condições precárias de parte das estradas.
"É uma questão bastante grave, que eleva muito o custo e que acaba atingindo diretamente a margem do produtor agrícola e isso requer também uma ação pública", afirma Gilio.
A falta de armazenamento adequado também provoca perdas de produtos agrícolas. Um dos entraves apontados pelo pesquisador é a demora na concessão de licenças ambientais para obras.
"Porque às vezes os projetos ficam simplesmente parados, são produtos que às vezes são urgentes, já têm às vezes financiamento para fazer, já têm estudos ambientais feitos, e aí, dentro da máquina pública, essas licenças acabam ficando presas", afirma.
Outra melhoria que ele acredita que poderia ser feita é a maior integração entre os modais de transporte, como ferrovias e hidrovias, reduzindo a dependência das estradas.
Para Vian, da Esalq, a conectividade no campo também é um gargalo de infraestrutura. "Não adianta nada se você tem uma máquina conectada, se você não tem como transferir dados", afirma.
Mais de 1,3 milhão de domicílios rurais não tinham acesso à internet em 2024, o equivalente a 15% do total, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O pesquisador do Insper pontua ainda que se trata de um problema de décadas e que levaria tempo para ser solucionado. Além disso, a iniciativa privada também precisaria investir nisso. No entanto, ele acredita que o próximo presidente poderia criar uma política de Estado voltada a garantir segurança jurídica para os investimentos.
Serigati explica que o financiamento de obras de infraestrutura é mais complexo e que o setor público não dispõe de recursos suficientes para atender toda a demanda. Por isso, a participação da iniciativa privada também seria necessária.
"E aí os instrumentos são variados: concessão, privatização ou parceria público-privada", afirma.
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Comunicação e valorização da agroindústria
O agronegócio enfrenta um problema de imagem dentro do próprio Brasil e no exterior, pontua Vian. Para ele, o setor precisa realmente de um plano de comunicação que valorize seus pontos fortes, mas que também demonstre disposição para corrigir fragilidades.
Segundo o professor, o governo federal já conta com mecanismos voltados a esse objetivo, mas eles podem ser aprimorados. "Eu acho que a gente precisa preparar melhor os nossos representantes, embaixadores, para falar de uma forma institucional, mas acho que a iniciativa privada, as associações, todo mundo de alguma maneira tem o seu papel nisso", afirma.
Para Serigati, uma política pública articulada com iniciativas do setor ajudaria a posicionar o Brasil nas negociações com outros países e ampliar a abertura de mercados.
Gilio afirma que outros países têm mais sucesso que o Brasil em criar uma marca internacional dos seus produtos agrícolas. "A gente tem alguns exemplos claros, como o café colombiano", diz. "Esses produtos passam a ser desejados pela própria origem", completa.
De acordo com o pesquisador do Insper, cabe também ao setor cumprir as políticas públicas, como a de combate ao desmatamento, para colaborar com a imagem. Ele ressalta que essa não é uma ação que possa ser concluída por um único governo e que seus resultados demandam vários anos.
Inserção internacional e competitividade
O mercado internacional vive uma nova configuração, em que, além de produzir de forma competitiva, os países precisam manter um diálogo com os compradores e esse é o desafio do Brasil neste tema, afirma Serigati.
Gilio afirma que o Brasil ainda tem poucos acordos comerciais de longo prazo. Por exemplo, o país deveria ter um acordo com a China, principal cliente do setor.
"Nesse mundo de guerra comercial, em que as barreiras crescem, as tarifas crescem por um lado, as restrições sanitárias por outro. É importante o país trabalhar um pouco mais em construir pontes para que a gente consiga garantir esses mercados", diz.
Segundo ele, os acordos geram previsibilidade, o que também favorece os investimentos privados no país. O pesquisador da Insper acredita também que o Brasil deveria se antecipar mais a possíveis restrições que os países parceiros venham a criar.
Um exemplo é o caso da proibição de antimicrobianos na produção animal, criada pela União Europeia. O Brasil só reagiu após a divulgação oficial da medida, embora ela já fosse amplamente esperada.
Outra questão é que o Brasil exporta grandes volumes, mas concentra as vendas em poucos países, o que representa um risco para o mercado.
Para Serigati, o esforço de se fazer presente nas mesas de negociação internacionais cabe ao governo, o que já tem sido feito pelo Brasil ao longo dos anos, mas também da iniciativa privada, como associações.
Vian, da Esalq, concorda que essa parceria é necessária. Ele afirma que o Brasil já conta com uma legislação sanitária e ambiental sólida e precisa defender esses pontos nas negociações internacionais.
Além disso, cada setor tem de estar preparado para as regras do país que deseja atender, afirma. Isso torna mais fácil negociar os termos das comercializações por produto, por exemplo, do que em um âmbito mais amplo, diz.
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