Desmatamento do Cerrado em MG aumenta quase 92% e atinge área maior que o tamanho de BH, aponta Inpe
25/04/2026
(Foto: Reprodução) Devastação do cerrado avança em Minas
O desmatamento do Cerrado em Minas Gerais cresceu quase 92% em sete meses e já atinge uma área maior que a de Belo Horizonte. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que o bioma perdeu 342 km² entre agosto de 2025 e março de 2026, período analisado pelo levantamento.
O avanço foi registrado pelo sistema de detecção em tempo real do Inpe, na comparação com o mesmo intervalo entre 2024 e 2025. Em Minas, a situação é considerada alarmante.
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Apesar de abrigar milhares de espécies de plantas e animais, menos de 10% de toda a área do Cerrado é oficialmente protegida. Atualmente, pouco mais da metade do bioma ainda mantém a vegetação nativa.
Segundo o pesquisador do Inpe Argemiro Teixeira, o Cerrado já apresenta um nível de desmatamento proporcionalmente maior que o de outros biomas, o que levanta hipóteses científicas de que ele pode não conseguir se regenerar completamente.
Esta reportagem aborda os temas abaixo:
'Caixa d’água do Brasil' sob pressão
Proteção limitada
Impacto no clima e na produção agrícola
Preservação como alternativa econômica
Fiscalização e ações do estado
Imagem de Cerrado em Minas Gerais
Reprodução/TV Globo
'Caixa d’água do Brasil' sob pressão
O Cerrado é considerado o “berço das águas” do país: 8 das 12 bacias hidrográficas brasileiras são abastecidas por ele. A vegetação tem raízes profundas, responsáveis por manter o fluxo dos lençóis freáticos, mesmo em períodos de seca, .
De acordo com a bióloga e botânica Fernanda Raggi, especialista no bioma, a preservação é essencial para garantir esse equilíbrio hídrico. Ela destaca há espécies com grande capacidade de regeneração, mas que dependem da integridade do solo.
Entre as espécies ameaçadas está o faveiro-de-Wilson (Dimorphandra wilsonii), com cerca de 400 indivíduos registrados em Minas, muitos fora de áreas protegidas. Outras plantas, como uma espécie de Ocotea e outra de Microlicia, também estão sob risco.
Na fauna, o lobo-guará sofre com a perda de habitat.
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Proteção limitada
O Cerrado ocupa cerca de 24% do território nacional, mas apenas 8,21% da área está em unidades de conservação. Em Minas Gerais, exemplos de proteção incluem áreas como o Parque Estadual da Serra do Rola-Moça.
Ainda assim, especialistas alertam que preservar apenas essas unidades não é suficiente. Pela legislação, propriedades rurais devem manter 20% da área como reserva legal no Cerrado — percentual menor que o exigido para a Mata Atlântica, de 50%.
Impacto no clima e na produção agrícola
Um estudo publicado na revista Nature Sustainability por pesquisadores do Inpe, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e uma universidade alemã, aponta que o desmatamento já afeta o regime de chuvas.
Segundo Argemiro Teixeira, a estação chuvosa no Cerrado está mais curta. "Isso não é só devido às mudanças climáticas globais [...], isso é devido às alterações que a remoção de vegetação nativa do Cerrado causam no clima local e regional."
A redução das chuvas pode comprometer a chamada “dupla safra”, modelo comum na região, em que soja e milho são plantados na mesma área.
Preservação como alternativa econômica
Na Serra da Canastra, o produtor rural Anael de Souza decidiu interromper o desmatamento e transformar a propriedade em uma reserva particular. Com isso, passou a investir no turismo e afirma que o Cerrado se regenerou naturalmente ao longo do tempo.
"O Cerrado renasceu. Essa é a primeira motivação do turista que vem. Ele quer árvore, bicho selvagem, cachoeira. E tem também o valor econômico, financeiro", afirma Anael.
Fiscalização e ações do estado
A Secretaria de Meio Ambiente de Minas Gerais informou que realizou mais de 11 mil fiscalizações entre abril de 2025 e março de 2026, principalmente nas regiões Norte, Noroeste, Jequitinhonha e Nordeste do estado.
As ações incluem monitoramento da vegetação e apuração de denúncias. Quando há irregularidades, as penalidades vão de multas ao embargo de áreas e à obrigação de recuperar a vegetação nativa.
A Federação da Agricultura e Pecuária de Minas Gerais foi procurada, mas não havia se manifestado até a última atualização desta reportagem.