Descoberta de nova espécie de sapo com 13 mm reforça reivindicação de proteção de montanhas entre PR e SC: 'Ambiente muito único e frágil'

  • 23/02/2026
(Foto: Reprodução)
Descoberta de espécie de sapo reforça reivindicação de proteção da Mata Atlântica Com apenas 13,4 milímetros de comprimento, os sapinhos da nova espécie Brachycephalus lulai carregam a reivindicação de um ecossistema inteiro. Também chamados de sapinhos-da-montanha, os pequenos animais vivem debaixo da matéria orgânica no chão das montanhas da Mata Atlântica, na Serra do Quiriri, na divisa entre Guaratuba, no Paraná, e Garuva, em Santa Catarina. De uma cor laranja brilhante, com pequenas verrugas marrons e verdes, o Brachycephalus lulai tem comportamento diurno – o que é incomum entre sapos – e um coaxar que mais parece o canto de um grilo. O sapinho foi encontrado pela primeira vez pelos pesquisadores em 2016. A publicação do artigo que descreve a espécie, porém, é de dezembro de 2025. ✅ Siga o canal do g1 PR no WhatsApp Conforme o artigo, nos últimos milhões de anos a região onde o Brachycephalus lulai foi encontrado passou por drásticas alterações ambientais. Com isso, as populações das espécies originais da região ficaram separadas geograficamente e passaram por adaptações ao novo habitat, dando origem a novas espécies. "Eles fazem parte de um ambiente muito único e frágil, o topo de montanhas da Floresta Atlântica brasileira", detalha Márcio Pie, do Departamento de Zoologia da UFPR, um dos pesquisadores que assinam o artigo de descrição da espécie. "Nesses lugares, são predadores de ácaros e formigas e por isso fazem parte da teia trófica [cadeia alimentar] dos animais desse tipo de ambiente". Como parte desse equilíbrio da cadeia alimentar, a espécie depende da preservação dos topos das montanhas para sobreviver, uma vez que os vales da região são campos abertos para os quais o lulai não conseguiria migrar. Brachycephalus lulai têm entre 8,9 e 13,4 mm Luiz Fernando Ribeiro/Mater Natura/UFPR Ainda desprotegidos Para os pesquisadores, o cenário reforça a necessidade da conservação da Mata Atlântica, em especial da Serra do Quiriri. "A gente se preocupa muito com a conservação pelo fato de eles estarem restritos a um espaço geográfico muito pequeno", explica Luiz Fernando Ribeiro, professor e pesquisador convidado do Departamento de Zoologia da UFPR. Conforme Ribeiro, espécies como esta são consideradas bioindicadores da qualidade do ambiente, uma vez que são extremamente sensíveis a alterações no ecossistema. O pesquisador usa como exemplo os Brachycephalus alipioi, espécie de pequenos sapos que era encontrada no Espírito Santo. Segundo Ribeiro, uma das suspeitas para a diminuição da ocorrência dos alipioi está relacionada à derrubada de árvores, o que fez com que o habitat dos sapinhos ficasse mais exposto à luz solar e tivesse um aumento de temperatura. "Pequenas alterações na floresta já podem impactar na sobrevivência deles", detalha. No caso dos Brachycephalus lulai, eles ainda estão desprotegidos. A região da Serra do Quiriri não faz parte de uma Unidade de Conservação que prevê proteção integral e a diversidade do local é ameaçada por pastos, plantações de pinus (espécie de pinheiro exótica, muito usada para retirada de madeira), queimadas, extração de minérios e pela degradação causada por estradas e rotas turísticas. Brachycephalus lulai têm entre 8,9 e 13,4 mm Luiz Fernando Ribeiro/Mater Natura/UFPR Os pesquisadores reivindicam a criação de um Refúgio de Vida Silvestre, categoria de Unidade de Conservação que garante proteção integral de locais essenciais para a vida e reprodução de espécies da fauna e da flora. No entanto, o Governo Federal, por meio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), estuda a criação de um parque nacional na região, com 327 quilômetros quadrados. Esse tipo de unidade de conservação também prevê proteção integral, mas é focada na preservação do ecossistema e da paisagem. Os pesquisadores estimam que — mesmo recém-descoberta — o Brachycephalus lulai já seja uma espécie ameaçada. A avaliação oficial sobre o grau de ameaça da espécie, porém, depende de órgãos ambientais públicos e ainda não foi feita. Para os cientistas envolvidos na pesquisa, a espécie tem chances de sobrevivência se contar com proteção e monitoramento adequados. Um nome, uma homenagem, uma reivindicação Como forma de reforçar a reivindicação da proteção da região, a espécie encontrada no local foi nomeada em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Durante os três mandatos de Lula, foram criadas mais de 70 Unidades de Conservação (UC), entre novas áreas, reclassificações e ampliações significativas. O volume supera o número de UCs criadas em todos os outros demais governos do período republicano do país. "É uma forma de a gente mostrar que as políticas públicas têm que ser alinhadas com a ciência. Elas têm que estar embasadas com a ciência. E é uma via de duas mãos: uma ajuda a outra. Enquanto a ciência mostra quais são as coisas importantes para a conservação, o valor da biodiversidade, a importância de se preservar, uma política pública voltada para conservação complementa esses dados que a ciência gera", justifica Ribeiro. Com a homenagem, os pesquisadores esperam também chamar atenção para a urgência de se proteger a biodiversidade da Serra do Quiriri. Para uma descrição, uma grande operação Sapinhos vivem sob a serrapilheira da Mata Atlântica Luiz Fernando Ribeiro/Mater Natura/UFPR Entre os Brachycephalus lulai, os machos têm entre 8,9 e 11,3 mm, e as fêmeas entre 11,7 e 13,4 mm. Escondidos entre a serrapilheira (camada de matéria orgânica no solo) das montanhas, encontrá-los exige uma grande operação. Ribeiro explica que, primeiro, os pesquisadores fazem uma modelagem, com dados ecológicos, que levanta uma estimativa da distribuição da espécie. Depois, os cientistas elencam os lugares que podem abrigar a espécie. No caso dos Brachycephalus lulai, por exemplo, os pesquisadores sabem que ele está presente em regiões com altitudes entre 700 e quase 2 mil metros – com isso, regiões fora da altitude indicada já são descartadas. Eles analisam ainda a vegetação e a fisionomia do local. Por fim, há a ida ao campo. Para encontrar os Brachycephalus lulai, os pesquisadores usam como referência o coaxar semelhante ao som de grilos. "A sua vocalização, o 'canto', é bem característica, mas encontrar os animais em si é bastante desafiador. Basicamente são horas revirando folhiço, tentando achá-los", afirma o professor Márcio Pie. Apesar de o sapinho ter sido encontrado pela primeira vez pelos pesquisadores em 2016, o processo de pesquisa e descrição passa por uma longa jornada até a publicação – um processo que exige muitas mãos e cabeças envolvidas. "Esse processo de descrição é muito demorado, porque é muito criterioso. Quanto mais a gente conhece a biodiversidade, mais difícil fica. No século XIX, quando os primeiros naturalistas vieram para o Brasil descrever nossas espécies, praticamente todas as espécies eram espécies desconhecidas. Então, era mais fácil de descrever, porque não se conhecia nada. Mas à medida que a gente vai avançando no conhecimento, fica cada vez mais difícil se encontrar os critérios e chegar a essa conclusão. Por isso que os trabalhos ficam cada vez mais demorados", explica Luiz Fernando Ribeiro. A descoberta do Brachycephalus lulai representa, segundo a UFPR, um avanço nas técnicas de descrição de anfíbios. O estudo reuniu pesquisadores das áreas de filogenia, genética, biogeografia, bioacústica e ecologia do Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos, além do Brasil. São 11 autores que assinam o artigo. Entre eles estão quatro pesquisadores da Universidade Federal do Paraná: Márcio Pie, Luiz Fernando Ribeiro, Júnior Nadaline (doutorando em Ecologia e Conservação) e André Confetti (doutorando em Zoologia). Nos últimos 15 anos, as buscas pelos sapinhos do gênero Brachycephalus têm unido os pesquisadores da UFPR , mas também da Universidade Estadual Paulista (Unesp). O esforço já rendeu a descrição de 13 espécies, contando com o lulai. Brachycephalus lulai vivem debaixo da matéria orgânica no chão das montanhas da Mata Atlântica Luiz Fernando Ribeiro/Mater Natura/UFPR Conforme a pesquisa, a espécie, que é a mais recente catalogada dentro do gênero, possui 18 características que a diferenciam das demais. Nesse processo, os pesquisadores fizeram análises genéticas e usaram tomografia para examinar a estrutura óssea dos Brachycephalus lulai. Entre as peculiaridades da espécie, o estudo aponta a variação da textura da pele: o dorso dos indivíduos da espécie tem textura lisa, enquanto as laterais do corpo e o ventre são bastante rugosos. Como acontece geralmente com sapos bem pequenos, eles também têm dedos a menos nas mãos e nos pés. Além disso, a espécie apresenta dimorfismo sexual, ou seja, machos e fêmeas têm características diferentes — em especial no tamanho. Os pesquisadores acreditam que a miniaturização da espécie ocorreu pela seleção de indivíduos capazes de viver em um microrrefúgio, um habitat pequeno e específico, caçando formigas e ácaros sob a proteção da camada de folhas no chão da floresta. Tomografia em alta resolução do Brachycephalus lulai usada na descrição da nova espécie Reprodução/Journal PLOS VÍDEOS: Mais assistidos do g1 Paraná Leia mais notícias do g1 Paraná.

FONTE: https://g1.globo.com/pr/campos-gerais-sul/noticia/2026/02/23/descoberta-de-nova-especie-de-sapo-com-13-mm-reforca-reivindicacao-de-protecao-de-montanhas-entre-pr-e-sc-ambiente-muito-unico-e-fragil.ghtml


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