Da sabedoria popular ao laboratório: Unifap transforma saberes ancestrais em remédios amazônicos usados no SUS
21/10/2026
(Foto: Reprodução) Medicamentos à base de Jucá são desenvolvidos no Amapá
Francisco Pinheiro/g1
A Amazônia amapaense é rica em diversidade e guarda conhecimentos que atravessam gerações. São alternativas de tratamento transmitidas de pais para filhos, que carregam não apenas a busca pela cura, mas também sentimentos de identidade e pertencimento.
Nesse cenário, onde os rios funcionam como ruas e os quintais se transformam nas farmácias mais acessíveis, o conhecimento popular segue vivo e faz parte do cotidiano de milhares de pessoas.
Unir esses saberes ancestrais à medicina moderna ainda é um desafio. Ao mesmo tempo, preservar as raízes da Amazônia tem se mostrado um caminho capaz de aliar acessibilidade, inovação e valorização dos povos tradicionais.
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No Laboratório de Fármacos da Universidade Federal do Amapá (Unifap), plantas conhecidas há séculos pelas comunidades ganham um novo olhar. Ali, o conhecimento tradicional encontra a pesquisa científica na busca por tratamentos para doenças estudadas há anos, como o pé diabético (entenda mais abaixo).
Coordenado pelo professor doutor José Carlos Tavares, o espaço de pesquisa pública tem, ao longo dos anos, transformado conhecimento em oportunidade. O trabalho desenvolvido no laboratório busca ampliar as opções de tratamento para pacientes que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS).
Criado em uma família que mantinha viva a tradição dos saberes populares, o pesquisador lembra que, desde a infância, observava os familiares recorrerem às plantas para tratar diferentes doenças.
Há mais de 35 anos, ele dedica sua carreira ao estudo de espécies da biodiversidade amazônica e à busca por medicamentos capazes de transformar a realidade de milhares de pacientes.
"Eu vim de uma família extremamente pobre e, naquela época, não existia SUS. Nós resolvíamos nossos problemas com as plantas medicinais que tínhamos no quintal de casa ou que buscávamos em outros lugares. Na graduação trabalhei com plantas medicinais, no mestrado também, e no doutorado aprofundei ainda mais esses estudos. Minha vida toda foi dedicada a tentar comprovar cientificamente aquelas atividades que a população já conhecia", explicou.
Desde 2005, quando chegou à Unifap e inaugurou o laboratório de fármacos, Tavares e seus alunos assumiram uma missão: unir ciência, inovação e valorização dos saberes tradicionais amazônicos.
"Nós só estudamos aquilo que é possível obter na natureza em toneladas. Para pensar em um produto destinado ao SUS ou à indústria farmacêutica, é necessário garantir matéria-prima em abundância. Por isso, nossos principais objetos de estudo são o jucá, os óleos de copaíba, andiroba e pracaxi, além do camu-camu e do açaí", destacou.
Professor doutor José Carlos Tavares
Reprodução
Da floresta ao laboratório
O desenvolvimento de um medicamento envolve diversas etapas, desde análises de qualidade e pesquisas laboratoriais até testes clínicos com pacientes. Após a conclusão dessas fases, os resultados são encaminhados para avaliação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Um dos projetos de maior destaque do laboratório é a pomada à base de jucá para tratamento do pé diabético.
Jucá e o tratamento do pé diabético
🔍O pé diabético é uma das complicações mais graves do diabetes. A condição provoca feridas e infecções nos pés devido a problemas de circulação sanguínea e perda de sensibilidade. Sem tratamento adequado, pequenas lesões podem evoluir rapidamente e resultar até mesmo em amputações.
A unidade de saúde vinculada à Unifap acompanha casos de pé diabético há cerca de duas décadas. A elevada demanda de pacientes despertou o interesse dos pesquisadores em buscar alternativas terapêuticas eficazes e acessíveis.
Foi nesse contexto que o jucá, planta amplamente encontrada na região amazônica e utilizada tradicionalmente como cicatrizante natural, tornou-se objeto de pesquisa. O conhecimento popular sobre suas propriedades medicinais serviu de inspiração para que os cientistas transformassem essa tradição em evidência científica.
Os estudos indicam que o jucá possui ações anti-inflamatória, antimicrobiana e regenerativa, características que contribuem para a cicatrização de feridas e reforçam seu potencial como alternativa terapêutica para pacientes atendidos pelo SUS.
A pesquisa mostrou que o Jucá aumenta o fluxo de sangue na área ferida, o que ajuda a irrigar a região e acelerar o processo de cura.
Medicamentos à base de Jucá são desenvolvidos no Amapá
Francisco Pinheiro/Rede Amazônica
Os estudos desenvolvidos pela equipe da Unifap já demonstram resultados considerados promissores no tratamento de feridas complexas associadas ao pé diabético. Em um dos casos acompanhados pelos pesquisadores, um paciente que utilizou um spray à base de jucá apresentou melhora significativa.
Segundo os especialistas, havia indicação de amputação devido à gravidade do quadro, mas o tratamento contribuiu para evitar a perda do membro.
"Conseguimos recuperar justamente com o spray que desenvolvemos, feito com nanopartículas a partir de uma resina de jucá, que atua sobre o biofilme. O grande problema no tratamento das feridas complexas são os biofilmes, devido à complexidade das bactérias existentes e de difícil tratamento", explicou o professor.
De acordo com o pesquisador, o sucesso do tratamento depende da combinação de diferentes produtos desenvolvidos para funções específicas durante o processo de cicatrização.
"Nunca se trata uma ferida com um produto só. Por isso, aqui desenvolvemos diversos produtos, mas cada um é indicado para uma ação", ressaltou José Carlos Tavares.
As pesquisas começaram em 2024 e passaram por diferentes etapas da fase pré-clínica. A pomada feita com jucá já concluiu todos os testes necessários e agora foi submetida à avaliação da Anvisa.
O projeto recebeu aprovação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e conta com o apoio do Hospital Universitário (HU) e de empresas ligadas à bioeconomia.
Pomada está em fase de teste em pacientes no HU
Francisco Pinheiro/g1
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Ambulatório fortalece atendimento a pacientes
A parceria entre o laboratório de fármacos e o HU também marcou uma nova etapa nas pesquisas e no tratamento de pacientes com pé diabético. Em 20 de maio, foi inaugurado o ambulatório especializado para acompanhamento desses casos.
O objetivo da iniciativa é avaliar se os produtos desenvolvidos pelos pesquisadores da universidade podem contribuir para a cicatrização de feridas causadas pelo pé diabético. Os pacientes passam por consultas, exames e avaliações periódicas, permitindo que a evolução das lesões seja monitorada ao longo de todo o tratamento.
Para participar do acompanhamento, é necessário ser portador de diabetes e apresentar condições clínicas específicas relacionadas à doença. A partir desses critérios, os pacientes são selecionados para integrar o programa de acompanhamento.
Além do tratamento das lesões, o ambulatório oferece atendimento multidisciplinar, reunindo profissionais de diferentes áreas da saúde. Os pacientes contam com acompanhamento nutricional, psicológico, fisioterapêutico, clínico e vascular, garantindo uma assistência integral durante o processo de recuperação.
Desde a implantação do serviço, mais de 100 pessoas já foram atendidas, reforçando a importância da iniciativa para a população amapaense e para o avanço das pesquisas que buscam transformar a biodiversidade amazônica em soluções inovadoras para a saúde pública.
HU oferece atendimento especializado a pacientes com feridas crônicas e pé diabético
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