Crise no Paraguai: manifestantes e polícia entram em confronto
05/11/2026
(Foto: Reprodução) Presidente do Paraguai renuncia ao cargo; veja íntegra do comunicado
Manifestantes e policiais entraram em confronto em frente ao Congresso do Paraguai nesta quinta-feira (5).
Esta reportagem está em atualização.
O Senado do Paraguai analisa um pedido de renúncia do presidente Santiago Peña, em meio à crise política provocada pela quebra do banco ueno. Se a Casa negar a abdicação do cargo, o Congresso poderá dar continuidade ao processo de impeachment.
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A sessão conjunta das duas Casas foi convocada para discutir a saída do presidente, que anunciou sua decisão pouco antes de a Câmara dos Deputados aprovar a abertura de um processo de impeachment contra ele.
O que está em jogo é a responsabilização política de Peña. Se o Congresso aceitar a renúncia, ele deixará o cargo sem ser condenado pelo impeachment e se tornar um senador vitalício.
Se o processo avançar e resultar em destituição, perderá esse direito.
A oposição teme que a renúncia permita ao presidente escapar de eventuais investigações criminais pela Justiça e, portanto, defende que Penã sofra impeachment.
➡️ No Paraguai, ex-presidentes que concluíram seus mandatos ou renunciaram ao cargo ganham o título de senador vitalício, o que lhe garante imunidade parlamentar pelo restante da vida.
Às 18h, o congresso deve dar posse ao vice-presidente Pedro Alliana como novo chefe de Estado, segundo anunciou o presidente da Câmara dos Deputados, Raúl Latorre.
Após a posse de Alliana, o Congresso deve escolher às 19h o novo vice-presidente do país.
A sessão foi convocada pelo presidente do Congresso, Basilio Núñez, e contou com a presença de 45 senadores e 65 deputados, segundo o jornal paraguaio Última Hora. A discussão ocorre paralelamente à disputa sobre a continuidade do julgamento político de Peña.
A oposição defende que o Senado conclua o processo antes de aceitar a renúncia, enquanto parlamentares governistas argumentam que a saída voluntária do presidente deve ser aprovada para encerrar a crise.
O processo ocorre em meio à crise provocada pela quebra do banco ueno, que deixou milhões de clientes sem acesso ao dinheiro depositado (leia mais abaixo).
A situação jurídica de Peña se tornou incerta depois que ele apresentou sua renúncia ao cargo, horas após a aprovação da acusação pelos deputados. O Congresso convocou uma sessão conjunta para analisar o pedido e discutir os próximos passos da sucessão presidencial.
Pelo artigo 225 da Constituição do Paraguai, cabe à Câmara dos Deputados apresentar acusações contra o presidente e o vice-presidente por mau desempenho das funções, crimes cometidos durante o mandato ou crimes comuns. O Senado é responsável por julgar o caso e decidir se o acusado deve ser destituído.
Veja, abaixo, a cronologia da crise no país vizinho:
Na manhã desta quinta (5), o Congresso do Paraguai deu os primeiros passos para votar um impeachment contra Santiago Peña, e contra seu vice, Pedro Alliana;
Horas depois, Peña apresentou uma carta de renúncia;
A Câmara do Paraguai, no entanto, não aceitou a renúncia e decidiu dar seguimento do processo de impeachment contra Peña - a votação foi unânime;
Já o processo de impeachment contra o vice, Pedro Alliana, foi rejeitado. A decisão abriu caminho para Alliana assumir a presidência do país.
Entenda os últimos acontecimento da crise
Segundo Ariel Palacios, comentarista da GloboNews e especialista em América Latina, Peña tentou se blindar e manter seu foro privilegiado ao anunciar sua decisão de renunciar. Isso porque, pela Constituição do Paraguai, ao deixar o cargo, os ex-presidentes da República viram senadores vitalícios.
A manobra, no entanto, foi frustrada quando a Câmara deu seguimento à abertura do impeachment. A Carta constitucional estabelece que o ex-presidente perde essa prerrogativa se tiver sido submetido a julgamento político e for considerado culpado.
Opositores advertiram que aceitar a renúncia permitiria a Peña ter uma blindagem parlamentar, impedindo que fosse julgado pela Justiça comum pelas suspeitas de crimes relacionados à crise do banco ueno.
👉 A Constituição paraguaia estabelece que é prerrogativa do Congresso aceitar ou rejeitar a renúncia do presidente da República e a do vice-presidente.
O pedido de renúncia de Peña
Santiago Penã apresentou sua carta de renúncia em um vídeo, em que se desculpou com a população que perdeu o acesso ao próprio dinheiro e disse que decidiu renunciar "pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar nossas instituições democráticas".
"Estou convencido de que nenhum cargo pode estar acima do bem-estar do Paraguai. Também quero pedir desculpas ao povo. Se em algum momento falhei, nunca foi minha intenção decepcionar a confiança que depositaram em mim", disse.
➡️ Santiago Peña é alvo de críticas por conta da crise bancária que começou após o banco digital ueno fechar as portas e deixar milhares de clientes sem acesso ao próprio dinheiro. Peña foi acionista do grupo que controla a instituição, e a oposição acusa o Banco Central paraguaio de encobrir irregularidades (leia mais abaixo).
Santiago Penã anuncia renúncia
Reprodução/X
O processo de impeachment
Nesta manhã, o Congresso do Paraguai havia iniciado uma sessão extraordinária para debater o pedido de impeachment, e todas as bancadas da Câmara dos Deputados anunciaram que votariam a favor do impeachment.
O processo do impeachment ganhou força após o Horário Cortes, atual presidente do Partido Colorado, sigla de Peña, retirar o apoio ao governo. Cortes é considerado o mentor de Peña. O presidente do Congresso, Basilio Nuñez, do Partido Colorado, também havia retirado apoio.
Economista conservador, Santiago Peña assumiu o governo do Paraguai em 2023 e seu mandato duraria até 2028.
Peña é aliado do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e integrava o Escudo das Américas, grupo de presidentes de países da América Latinha ideologicamente alinhados a Trump. No entanto, Peña também tem boa relação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
CLIENTES DE BANCO SEM DINHEIRO: entenda a crise bancária que levou à renúncia
'HISTÓRIA VAI JULGAR': leia a íntegra da carta de renúncia de Santiago Peña
Santiago Peña, economista e ex-ministro da Fazenda durante o governo de Cartes, é o atual candidato presidencial do Colorado
REUTERS
Acusação
Clientes do banco ueno fazem protesto em Assunção, no Paraguai, em 5 de novembro de 2026.
Daniel Duarte/ AFP
A oposição acusa Peña de conflito de interesses, manipulação de regras e desvio de recursos previdenciários, entre outros pontos. A acusação também aponta que o Banco Central paraguaio teria encoberto irregularidades.
“Nunca antes alguém prejudicou, em um único dia, 3 milhões de pessoas na República do Paraguai, e o senhor conseguiu isso, senhor presidente... o senhor é a origem desse monstro que criou”, disse a deputada de oposição Rocío Vallejo durante a sessão, pouco antes da apresentação do pedido.
A acusação foi apresentada por 35 deputados, que pediram ao presidente da Câmara a convocação da sessão extraordinária.
Penã foi acionista do grupo dono do banco
Deputado da oposição no Paraguai segura cartaz em ato que pede impeachment do presidente Santiago Peña após fechamento de banco virtual que gerou crise bancária no país, em 5 de novembro de 2026.
Cesar Olmedo/ Reuters
👉 Peña, que também é economista, foi acionista do grupo proprietário do ueno até março do ano passado. O banco tinha cerca de 3 milhões de clientes e concentrava aproximadamente US$ 850 milhões em depósitos públicos, incluindo recursos do Instituto de Previdência Social.
O ueno, que pertence ao Grupo Vázquez, fechou as portas na terça-feira (3), depois que o Banco Central iniciou sua liquidação. A autoridade monetária identificou uma insuficiência de recursos para cobrir as obrigações do banco, relacionada a empréstimos concedidos a empresas vinculadas à instituição.
Em uma publicação em suas redes sociais, o presidente paraguaio afirmou que os responsáveis pelas irregularidades responderão à Justiça, sem exceções. A declaração foi feita pouco antes de que ele promulgasse uma lei que permitirá aos clientes do ueno recuperar seu dinheiro mais rapidamente.
“Peço veementemente a todos os setores políticos que coloquem o interesse dos poupadores acima de qualquer outro interesse”, afirmou.
Agora no g1
Executivos do ueno se entregaram às autoridades após a emissão de mandados de prisão pela Procuradoria, que também acusou formalmente 27 pessoas ligadas ao banco. A Justiça ordenou ainda o bloqueio dos bens dos acusados.
Nesta quarta-feira, também circularam relatos de falhas em aplicativos de outros bancos, o que aumentou a preocupação com o sistema financeiro do país.
A Associação de Bancos do Paraguai (Asoban) informou que as instituições financeiras trabalhavam para atender ao grande volume de clientes que estavam transferindo suas contas do ueno. A entidade ressaltou que o sistema bancário continuava “operando normalmente”.
Pessoas fazem fila para tentar retirar dinheiro em banco em Assunção, no Paraguai, diante de temor gerado por crise bancária no país, em 3 de novembro de 2026.
Daniel Duarte/ AFP