Ciência e desigualdade: custos invisíveis e efeito tesoura afastam mulheres da carreira científica
11/02/2026
(Foto: Reprodução) Ciência e desigualdade: custos invisíveis e efeito tesoura afastam mulheres da carreira científica
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O dia 11 de fevereiro, Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência, costuma ser marcado por balanços. Quantas somos, onde estamos, o quanto avançamos.
Esses números importam e continuam sendo necessários. Eles revelam desigualdades persistentes e ajudam a sustentar reivindicações por políticas públicas. Mas há um limite para o que esses dados, sozinhos, conseguem explicar.
Saber quantas mulheres e meninas estão na ciência não nos diz, por si só, como a ciência opera para produzir essas distribuições nem quais mecanismos sustentam essas trajetórias ao longo do tempo.
Desigualdades educacionais, econômicas, territoriais e simbólicas
A presença de mulheres na ciência é frequentemente tratada como um problema de volume. Mais acesso, mais permanência, mais representatividade. Essa lógica pressupõe que o principal desafio seja aumentar números.
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No entanto, quando observamos com atenção as experiências concretas de mulheres e meninas na ciência, o que aparece não é apenas uma questão de quantidade, mas de forma.
Não apenas quem entra ou quem sai, mas como a ciência é vivida enquanto se entra, enquanto se tenta permanecer e enquanto se decide seguir ou não.
O acesso à ciência nunca foi distribuído de maneira homogênea. Ele é atravessado por desigualdades educacionais, econômicas, territoriais e simbólicas que se constroem muito antes da universidade.
As oportunidades de contato com práticas científicas, de reconhecimento como alguém capaz de produzir conhecimento e de incentivo para seguir esse caminho são desiguais desde cedo.
E esses processos, raramente explícitos, se acumulam ao longo do tempo e moldam expectativas, pertencimentos e possibilidades de forma silenciosa.
Penalizações
Mesmo quando o acesso formal se amplia, isso não significa que as condições para seguir na ciência estejam garantidas. No Brasil, mulheres são maioria na graduação e na pós-graduação, mas essa presença numérica convive com assimetrias importantes.
Há diferenças persistentes entre áreas do conhecimento, além da perda significativa das mulheres ao longo da carreira.
A ciência se organiza como um percurso longo, cumulativo e altamente seletivo. Avaliações sucessivas, prazos rígidos, métricas quantitativas e expectativas de produtividade contínua operam como filtros permanentes.
O chamado efeito tesoura não é apenas um gráfico que mostra menos mulheres nos níveis mais altos da carreira. Ele expressa um sistema que desgasta progressivamente e no qual a exclusão acontece por acúmulo.
Muitas trajetórias não são interrompidas por um único evento, mas por um conjunto de pequenas penalizações que tornam a permanência cada vez mais custosa.
Além disso, desigualdades de raça e deficiência são presentes e gritantes. Mulheres negras e indígenas seguem sub representadas na ciência, especialmente nos espaços de maior poder e prestígio.
Pessoas com deficiência, em especial mulheres, permanecem quase invisíveis nesses espaços. Essas desigualdades são resultados de um sistema que molda quem consegue chegar e em que condições.
É nesse ponto que os números deixam de ser suficientes como explicação. A saída de mulheres da carreira científica não pode ser compreendida como resultado de menor dedicação ou menor capacidade.
Análises longitudinais indicam que, em muitos casos, mulheres apresentam trajetórias produtivas e impacto acadêmico semelhantes aos de homens que permanecem. Ainda assim, elas deixam a carreira em proporções maiores.
O que aparece de forma recorrente nessas análises é a exposição desigual aos custos que não entram nas métricas tradicionais de avaliação. Custos de tempo, de saúde mental, de cuidado e de pertencimento institucional. Custos que não aparecem nos currículos, mas que moldam profundamente as trajetórias.
O modelo dominante de excelência científica foi construído a partir da ideia de disponibilidade contínua, produção constante e trajetórias lineares.
Interrupções são tratadas como desvios. Ritmos diferentes são interpretados como falta de comprometimento. A valorização da hiperprodutividade se combina com avaliações cada vez mais quantitativas, que tendem a desconsiderar contextos e transformar desigualdades estruturais em diferenças individuais de desempenho.
Esse modelo favorece quem consegue sustentar longas jornadas de trabalho e quem não precisa negociar permanentemente sua legitimidade dentro das instituições.
Parentalidade
Estudos conduzidos pelo movimento Parent in Science ajudam a compreender como esses mecanismos se tornam especialmente visíveis quando a parentalidade entra em cena.
A maternidade aparece como um ponto de inflexão importante na carreira científica das mulheres, não porque introduza um problema novo, mas porque explicita fragilidades estruturais do sistema.
A queda de produtividade observada após o nascimento de filhos colide com um modelo acadêmico que não prevê pausas reais e não ajusta expectativas diante de mudanças previsíveis no ciclo de vida.
Este conflito leva a um reposicionamento dentro da hierarquia científica, cujos efeitos se acumulam ao longo do tempo e afetam de forma duradoura a progressão na carreira das mulheres.
Nos últimos anos, algumas políticas institucionais e de fomento começaram a enfrentar parte dessas distorções.
Editais que consideram a licença-maternidade, extensões de prazo e auxílios financeiros específicos têm se tornado mais comuns dentro da ciência brasileira, reconhecendo que as desigualdades existentes não decorrem de limitações individuais, mas das condições estruturais oferecidas ou negadas pelo sistema científico.
Ainda assim, grande parte dessas iniciativas opera de forma reativa. São respostas pontuais a um modelo que permanece essencialmente o mesmo.
Ao tratar cuidado (ou qualquer outra dimensão social) como exceções a serem compensadas, a ciência preserva seus critérios centrais de avaliação. Continua pressupondo trajetórias homogêneas e convertendo resistência em virtude. O desgaste se transforma em prova de mérito e a sobrevivência passa a ser confundida com excelência.
Se quisermos ir além do que os números já nos mostram, é preciso deslocar a pergunta. Não apenas quantas mulheres e meninas estão na ciência, mas quais trajetórias são valorizadas? Que vidas são consideradas compatíveis com a prática científica? Que custos são naturalizados em nome da “excelência”?
Neste 11 de fevereiro, nosso desafio não está apenas em produzir novos balanços, mas sim em questionar os modos de funcionamento que fazem com que esses balanços se repitam ano após ano.
Repensar a ciência a partir das experiências de mulheres e meninas não é apenas uma questão de equidade. É uma forma de ampliar o próprio horizonte do conhecimento científico, tornando a ciência mais atenta às realidades sociais que ela própria pretende compreender e transformar.
*Fernanda Staniscuaski é afiliada ao Movimento Parent in Science.