Câmara dos Deputados completa 200 anos com acervo histórico acessível a quem visita o Congresso
05/05/2026
(Foto: Reprodução) Câmara Federal está completando 200 anos
A Câmara dos Deputados completa nesta quarta-feira (6) 200 anos. Uma história armazenada e contada em milhares de leis e documentos. Um tesouro acessível a quem visita o Congresso.
É muita história. Antes de ser enforcado, Tiradentes ficou preso em uma cadeia no Rio de Janeiro: a Casa de Câmara e Cadeia, a Cadeia Velha. Foi nesse prédio que funcionou a primeira sede da Câmara dos Deputados, ainda no Império. Depois, foram anos passando por espaços temporários - na então capital do país – até a construção do que parecia ser a sede definitiva: o Palácio Tiradentes. Inaugurada em 1926, ficou lá até 1960, quando a capital foi transferida para Brasília.
“Foi um projeto feito com muito empenho, apesar do tempo curto que nós tínhamos. Eu gosto muito do Congresso. É uma silhueta fantástica”, disse o arquiteto Oscar Niemeyer.
Fantástica e, como afirma o professor Lúcio Rennó, fundamental para a democracia:
“Uma democracia não sobrevive sem a Câmara, sem o Poder Legislativo. Por isso é fundamental também protegermos a Câmara, valorizarmos a Câmara, porque sem ela não há democracia”, afirma Lúcio Rennó, professor de Ciência Política da UnB.
Tudo o que interessa ao Brasil passa pela Câmara:
a Lei Áurea de 13 de maio de 1888 declara extinta a escravidão;
férias: o projeto de 1925 propunha 15 dias;
o voto feminino: a primeira tentativa foi em 1924. O marido precisava consentir. Desquitada não votava. Só 40 anos depois tornou-se obrigatório;
o divórcio demorou mais: a lei foi sancionada em 1977. Até então, o casamento era indissolúvel. Havia o desquite – e desquitados não podiam casar novamente;
já a licença-paternidade entrou na legislação em 1967: um dia. Foi ampliada para cinco dias na Constituinte e, agora, uma nova lei vai aumentar gradativamente para até 20 dias.
Câmara dos Deputados completa 200 anos com acervo histórico acessível a quem visita o Congresso
Jornal Nacional/ Reprodução
Também faz parte da história: a ditadura militar, que em 1968, com o Ato Institucional nº 5 (AI-5), fechou o Congresso, cassou mandatos, acabou com a oposição.
Ao longo dos anos, o perfil dos deputados foi mudando:
o primeiro deputado negro foi eleito em 1823;
a primeira mulher em 1933;
o primeiro indígena em 1982;
a primeira mulher negra em 1986;
as primeiras mulheres trans em 2022.
E quantas mudanças também na vida dos brasileiros com a Constituição-Cidadã. Vídeos, fotos, jornais antigos, documentos, leis. Nesses 200 anos, milhares de leis foram aprovadas na Câmara. Parte dessa história é mantida e preservada lá.
“É a história da Câmara, a história do Legislativo e é a história do Brasil. O que acontece fora da Câmara reflete aqui, o que acontece aqui reflete fora”, diz a arquivista Vânia Lúcia Alheiro Rosa.
Temperatura, umidade, tudo sob controle. Luvas. Mas e quando um manuscrito é encontrado danificado? É quase um “de volta para o passado”. Pincéis, pinças, olhos de lince. Em quatro dias, a restauradora Joana Braga Paulino quase montou o quebra-cabeças. Quase. E esses espaços vão seguir incompletos. É história:
“Nós não podemos inventar uma informação. Todos os fragmentos são guardados. Temos a pretensão de algum dia encontrar o lugarzinho certo de cada um deles”, conta a restauradora Joana Braga Paulino.
Câmara dos Deputados completa 200 anos com acervo histórico acessível a quem visita o Congresso
Jornal Nacional/ Reprodução
Em dezembro de 2025, pesquisa Quaest mostrava que 20% da população avaliavam a Câmara como positiva e 36%, negativa. Reflexo de dias em que os debates ultrapassaram os limites republicanos de respeito às diferentes opiniões. O diretor de documentação da Câmara diz que a Casa é um espelho do Brasil.
“De quatro em quatro anos, nós auscultamos a sociedade e perguntamos: quem você quer que sejam seus representantes aqui? O país não é perfeito, a sociedade não é perfeita e, assim sendo, a Câmara dos Deputados também não é. Mas ela traduz o sentimento da sociedade brasileira”, afirma Sérgio Sampaio, diretor de documentação da Câmara.
O presidente da Câmara, Hugo Motta, do Republicanos, disse que a crítica faz parte do jogo democrático e que a Câmara tem cumprido o seu papel:
“Eu digo sempre que nós somos a casa das soluções possíveis. Nem sempre as soluções possíveis são as soluções mais perfeitas ou mais imperfeitas, mas é aí que mora a beleza da democracia. É nessa convivência e nessa capacidade de se entender que nós somos a casa que verdadeiramente representa a população brasileira. Nós somos a casa do povo brasileiro”.
Povo brasileiro que, a cada eleição, tem a oportunidade de resgatar e consolidar os ideais da República expressos na Constituição.