Cães já viviam com humanos há mais de 15 mil anos, mostra estudo genético inédito

  • 25/03/2026
(Foto: Reprodução)
Reconstituição artística de Pınarbaşı, na atual Turquia, há cerca de 15.800 anos, com base em evidências de escavações arqueológicas da University of Liverpool. Kathryn Killackey Pesquisadores identificaram a evidência genética mais antiga já registrada da existência de cães domésticos. Por meio da análise de um DNA antigo extraído de ossos encontrados em sítios arqueológicos no Reino Unido e na Turquia, cientistas de 17 instituições confirmaram que os animais já conviviam com grupos humanos de caçadores-coletores há aproximadamente 15.800 anos, mais de 5.000 anos antes do que indicava o registro genético anterior. Os resultados foram publicados nesta quarta-feira (25) na prestigiada revista científica "Nature". "Descobrimos que os primeiros cães da Europa compartilham origem com cães da Ásia e de outras partes do mundo, o que nos permite descartar a hipótese de que tenham sido domesticados de forma independente a partir de lobos locais", explica ao g1 Anders Bergström, um dos autores do estudo e pesquisador da Escola de Ciências Biológicas da University of East Anglia (Reino Unido). "A rápida disseminação dos cães pela Eurásia é fascinante e ainda um pouco misteriosa", acrescenta Bergström, especialista em genética e evolução, com foco em DNA antigo e história evolutiva de animais e humanos. Os dois estudos, conduzidos por equipes diferentes mas publicados na mesma edição da revista, analisaram ossos encontrados em cavernas na Inglaterra e na Turquia, além de sítios na Alemanha, Itália, Suíça e Sérvia. Juntos, eles mostram que cães domesticados já estavam amplamente dispersos pelo oeste da Eurásia pelo menos há 14.000 anos, e que essa população compartilhava uma ancestralidade geneticamente semelhante apesar de estar distribuída por milhares de quilômetros. Os resultados indicam que, naquela época, os cães já formavam uma população geneticamente semelhante espalhada por uma vasta área da Eurásia. Isso sugere que esses animais se expandiram rapidamente entre grupos humanos. “O fato de as pessoas trocarem cães tão cedo significa que esses animais devem ter sido importantes. Com recursos limitados, mantê-los implica que eles tinham uma função, e uma possibilidade é que atuassem como um sistema de alarme altamente eficiente”, afirma Laurent Frantz, um dos autores do estudo. Veja os vídeos que estão em alta no g1 LEIA TAMBÉM: O paradoxo da reciclagem no Brasil: por que os trabalhadores que mais contribuem são os que mais sofrem? Novo cigarro? As cidades que estão proibindo propagandas ligadas a combustíveis fósseis Água pode se tornar novo alvo da guerra no Oriente Médio Da Anatólia à Inglaterra No primeiro estudo, conduzido por pesquisadores da Universidade Ludwig-Maximilians de Munique (Alemanha), os pesquisadores analisaram ossos encontrados em Pınarbaşı, na Turquia (datados de aproximadamente 15.800 anos atrás), na Gruta de Gough, no Reino Unido (cerca de 14.300 anos), e em dois sítios mesolíticos na Sérvia. A análise mostrou que esses cães paleolíticos eram geneticamente semelhantes entre si e faziam parte de uma população que se expandiu pelo oeste da Eurásia entre 18.500 e 14.000 anos atrás. Os restos foram associados a diferentes grupos humanos de caçadores-coletores — geneticamente e culturalmente distintos entre si —, o que sugere que a dispersão dos cães pode ter acompanhado os movimentos e interações entre essas populações humanas. No segundo estudo, pesquisadores de universidades e centros de pesquisa do Reino Unido, Alemanha e Suíça analisaram os genomas de 216 restos de cães e lobos encontrados na Europa e em regiões próximas. O espécime mais antigo identificado como cão vem do sítio arqueológico de Kesslerloch, na Suíça, e foi datado em cerca de 14.200 anos por meio do carbono-14 (uma técnica que mede a quantidade de um elemento radioativo presente em restos orgânicos para estimar a idade do material). Reconstrução de mandíbula de cão com cerca de 14.300 anos, encontrada na caverna de Gough, no Reino Unido. Tom Anders & Longleat A análise mostrou que esse animal compartilhava ancestralidade com cães de outras regiões, indicando que a diversificação genética dos cães domésticos já havia começado antes dessa data — e que os cães paleolíticos europeus não derivam de um processo independente de domesticação. Os pesquisadores também identificaram uma influência genética do sudoeste asiático em alguns cães neolíticos europeus, reflexo da migração humana associada à chegada da agricultura na Europa. Esse efeito, porém, foi menor nos cães do que nos humanos, sugerindo que animais de grupos locais de caçadores-coletores contribuíram de forma expressiva para os cães do período neolítico — e, provavelmente, para os cães europeus modernos. LEIA TAMBÉM: Meteorito cai na Alemanha e é confundido com míssil iraniano Nasa reestrutura programa Artemis após múltiplos atrasos: meta é pouso na Lua em 2028 Neandertais machos cruzaram mais com mulheres Homo sapiens, indica estudo Enterrados com cuidado, alimentados com peixe Para além dos dados genéticos, os pesquisadores encontraram pistas sobre como era a convivência cotidiana entre humanos e cães nesse período. Uma técnica chamada de análise de isótopos (que examina a composição química dos ossos para identificar o que um animal comia ao longo da vida) mostrou que os cães de Pınarbaşı provavelmente recebiam peixe dos humanos com quem viviam. Isso significa que esses humanos da época não apenas toleravam a presença dos animais, mas os alimentavam de forma deliberada, compartilhando recursos em um período em que a sobrevivência era difícil. Há também evidências de que, ao morrer, esses cães eram enterrados intencionalmente, e não simplesmente descartados. Na Gruta de Gough, alguns ossos apresentam marcas feitas por humanos, incluindo perfurações nas mandíbulas, o que sugere que os animais tinham algum valor simbólico mesmo após a morte. Padrões semelhantes também foram encontrados em um sítio na Alemanha. Cena de reconstituição em frente à caverna de Kesslerloch, em Thayngen, na Suíça. Katharina Schäppi / Serviço Arqueológico Cantonal de Schaffhausen (KASH) A análise do DNA ainda revelou algo inesperado sobre a linhagem desses animais. Os cães da Gruta de Gough e de Pınarbaşı eram geneticamente mais próximos dos ancestrais de raças europeias e do Oriente Médio que existem hoje — como boxers e salukis — do que de raças árticas, como o husky siberiano. Em outras palavras, as grandes famílias genéticas que deram origem às raças modernas já existiam no Paleolítico Superior, há mais de 15.000 anos. "A identificação genética de dois cães paleolíticos da Gruta de Gough e de Pınarbaşı representa uma mudança de patamar na nossa compreensão dos primeiros cães. Esses espécimes nos permitiram identificar cães antigos adicionais em sítios na Alemanha, Itália e Suíça, que mostram claramente que os cães já estavam amplamente dispersos pela Europa e pela Turquia há pelo menos 14 mil anos", afirma William Marsh, pesquisador do Museu de História Natural de Londres e coautor do estudo. Apesar dos avanços, os pesquisadores destacam que ainda há lacunas importantes sobre a origem e a domesticação dos cães. Uma das principais questões em aberto é identificar com precisão onde esse processo começou — algo que, até agora, os dados disponíveis não conseguem responder de forma definitiva. Segundo os cientistas, as evidências atuais apontam para a Ásia como provável ponto de origem, mas ainda faltam dados genéticos robustos de regiões-chave, especialmente do leste asiático. Isso impede que os pesquisadores reconstruam com mais clareza os primeiros momentos da relação entre humanos e cães. “O grande desafio que ainda permanece é descobrir onde, exatamente, os cães foram domesticados. Acreditamos que isso provavelmente ocorreu na Ásia, mas ainda é uma questão em aberto”, afirma Bergström. Para avançar nessa resposta, o próximo passo será ampliar a base de dados genéticos com a análise de novos fósseis. A expectativa é que restos mais antigos de cães e lobos, especialmente vindos da Ásia, ajudem a rastrear com mais precisão a origem dessa linhagem. “Vamos precisar de mais dados genéticos de cães e lobos antigos, especialmente do leste da Ásia, para entender melhor onde tudo começou e quais grupos humanos estavam envolvidos nesse processo”, diz o pesquisador. Além da origem, os cientistas também querem entender melhor como se deu a convivência inicial entre humanos e cães — e quais fatores levaram esses animais a se tornarem os primeiros companheiros da espécie humana. Ilha na Austrália vira um tapete vermelho: a impressionante migração dos caranguejos

FONTE: https://g1.globo.com/ciencia/noticia/2026/03/25/caes-ja-viviam-com-humanos-ha-mais-de-15-mil-anos-mostra-estudo-genetico-inedito.ghtml


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