Cachorro-do-mato é flagrado usando insetos como 'remédio' no interior de SP
31/03/2026
(Foto: Reprodução) Cachorro-do-mato é flagrado usando insetos como 'remédio' no interior de SP
Um comportamento curioso — e até então nunca registrado desta forma — chamou a atenção de pesquisadores no interior de São Paulo: um cachorro-do-mato (Cerdocyon thous) foi flagrado esfregando o corpo em um grilo e lambendo uma barata, sem ingerir os insetos. A cena, registrada em Franca (SP), pode indicar um caso de automedicação animal, fenômeno conhecido como zoofarmacognosia.
“Não era um contato aleatório. O animal manipulava o inseto de forma específica, esfregando ou lambendo, e sem consumi-lo, o que foge completamente de um comportamento alimentar”, explica o biólogo Alex Luiz de Andrade Melo, orientador do estudo publicado na revista Research, Society and Development.
Cachorro-do-mato é flagrado 'se medicando' com insetos
Miguel Veronez
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Insetos como “remédio”? Comportamento raro
O ineditismo do estudo baseia-se em três aspectos:
Espécie,
Ttipo de comportamento;
Contexto periurbano.
Embora o cachorro-do-mato seja bem estudado, essa interação específica com função terapêutica ainda não havia sido documentada para a espécie.
Os registros mostram dois episódios claros em que o animal solta o inseto ainda vivo após dois ou três minutos de manipulação. Ele esfrega o corpo contra um grilo e, em outro momento, lambe repetidamente uma barata, chegando a manipulá-la com a boca.
“O contato sem ingestão sugere que o objetivo pode ser aplicação tópica, possivelmente para controle de ectoparasitas ou irritações cutâneas”, explica Melo.
A zoofarmacognosia é o comportamento no qual animais selvagens, e alguns domésticos, automedicam-se
Miguel Veronez
A hipótese é sustentada pela ciência, já que insetos como baratas e grilos possuem compostos químicos com potencial antimicrobiano, antifúngico ou repelente.
O monitoramento foi realizado de forma não invasiva, com o uso de câmeras automáticas em uma área de transição entre a cidade e o Cerrado. Para os pesquisadores, o ambiente periurbano facilita o registro de eventos raros devido à proximidade com o monitoramento constante.
A descoberta começou de forma inesperada, a partir de imagens feitas pelo fotógrafo Miguel Veronez.
“Percebemos que o animal não estava se alimentando. Mesmo sendo uma espécie que consome insetos, naquele caso ele apenas interagia com eles, sem ingestão”, conta a estudante de medicina veterinária Giovana Rodrigues Cintra, autora do artigo.
Contato sem ingestão sugere que o objetivo pode ser aplicação tópica, possivelmente para controle de ectoparasitas ou irritações cutâneas
Miguel Veronez
Para Giovana, o estudo reforça que o comportamento dos animais silvestres pode ser muito mais complexo do que o descrito na literatura científica.
O próximo passo da investigação envolve análises químicas para comprovar a função medicinal dos compostos presentes nos insetos manipulados pelo cachorro-do-mato.
Laboratório a céu aberto
O estudo foi realizado em uma área de transição entre cidade e vegetação nativa, o chamado ambiente periurbano, em uma região de contato com fragmentos de Cerrado, rica em biodiversidade.
Para Alex, esses locais funcionam como uma espécie de laboratório ecológico, já que aumentam a probabilidade de registro de comportamentos raros.
Estudo foi realizado em uma área de transição entre cidade e vegetação nativa, o chamado ambiente periurbano
Miguel Veronez
“A presença de câmeras e a proximidade com pesquisadores faz com que eventos raros sejam mais facilmente documentados”, explica.
Ainda assim, ele ressalta que isso não significa que o comportamento tenha surgido ali. “É possível que esse comportamento já ocorra em ambientes naturais, mas passe despercebido”.
De um registro casual à ciência
Essa foi uma descoberta que começou de forma inesperada, a partir de imagens registradas por um fotógrafo de natureza.
“Tudo começou com um registro feito pelo meu namorado, Miguel Veronez, junto com meu sogro, que capturaram um comportamento incomum do animal”, conta a estudante de medicina veterinária Giovana Rodrigues Cintra, autora do artigo.
O cachorro-do-mato é amplamente distribuído na América do Sul (excluindo a bacia Amazônica), desde o norte da Colombia até o norte da Argentina
Miguel Veronez
Ao analisar o material com mais atenção, veio a surpresa. Com a repetição do comportamento, a hipótese ganhou força. “Quando esse padrão se repetiu em mais de um registro, ficou claro que não se tratava de um comportamento alimentar”.
Insetos como baratas e grilos possuem uma série de compostos químicos com potencial antimicrobiano, antifúngico ou repelente de parasitas
Miguel Veronez
Para a estudante, o estudo reforça como o comportamento animal ainda guarda complexidades pouco exploradas. “O comportamento dos animais silvestres pode ser mais complexo do que o que está descrito na literatura”, afirma.
A experiência também deixou um aprendizado importante:
“Pequenos detalhes fazem muita diferença, principalmente quando a gente está tentando entender o comportamento de um animal em ambiente natural”.
Agora, o próximo passo é avançar nas pesquisas para entender melhor o fenômeno, inclusive com análises químicas que possam comprovar a função medicinal dos insetos.
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