Ártico não está preparado para monitorar avanço de mosquitos, alerta editorial da Science
17/04/2026
(Foto: Reprodução) Falésias da ilha de Grímsey, na Islândia, única área habitada do país dentro do Círculo Polar Ártico.
MosheA / CC BY-SA 2.5
O Ártico não tem um sistema coordenado para monitorar mosquitos e outros insetos — e essa lacuna torna impossível saber o que está chegando à região e quais comunidades correm mais risco.
O alerta é de um editorial publicado na última quinta-feira (16) na revista "Science" pelas pesquisadoras Amanda Koltz, da Universidade do Texas em Austin, e Lauren Culler, do Dartmouth College (EUA).
Em outubro de 2025, pesquisadores do Instituto de Ciências Naturais da Islândia confirmaram a presença de mosquitos pela primeira vez no país.
Três exemplares da espécie Culiseta annulata foram encontrados na região de Kiðafell, perto de Reykjavík. A Islândia era um dos últimos lugares do mundo sem o inseto. Agora não é mais.
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"Sem saber o que existe lá agora, não temos como reconhecer o que é novo, o que se deslocou ou o que desapareceu — e isso torna quase impossível detectar mudanças de qualquer forma significativa", disse Koltz ao g1.
O caso islandês não é isolado. Em toda a região ártica, mosquitos e outros insetos estão chegando a lugares onde antes não viviam, ou aparecendo em épocas do ano em que antes não eram vistos.
Aves migratórias, renas e mamíferos ruminantes como caribus já sentem isso na prática — mosquitos em grande número alteram os padrões de deslocamento desses animais, que passam a gastar mais energia se protegendo do que se alimentando.
Plantas que dependem de insetos para se reproduzir também são afetadas quando essas relações mudam.
O problema, dizem as pesquisadoras, é que ninguém está registrando nada disso de forma organizada.
Não existe, hoje, um levantamento sistemático de quais espécies de insetos vivem no Ártico, em que regiões e em que quantidade.
Sem isso, não há como saber se uma espécie que aparece hoje é nova na área ou sempre esteve lá. Não há como saber se uma que sumiu desapareceu por causa do clima ou por outro motivo. E não há como prever o que pode vir a seguir.
Mosquito Culiseta annulata, que é o tipo encontrado em Kiðafell, Kjós.
Wikimedia/Domínio Público
Região está mais aberta e mais vulnerável
Navios, turistas, militares e obras de infraestrutura estão se expandindo pelo Ártico, criando novas rotas pelas quais espécies podem ser transportadas involuntariamente para novos territórios.
Segundo as pesquisadoras, se alguém embarca em um avião no Ártico durante a temporada de mosquitos, por exemplo, os insetos entram na aeronave e podem viajar até outras regiões.
O mesmo vale para navios, onde a água de lastro — carregada nos porões para estabilizar a embarcação e despejada ao chegar ao destino — é uma via conhecida de introdução de espécies em novos ambientes.
Por isso, as autoras também defendem que os povos indígenas que vivem permanentemente na região precisam estar no centro de qualquer sistema de monitoramento, não como fonte de informação adicional, mas como parte do desenho desde o início.
"O conhecimento mantido pelos povos indígenas, incluindo suas formas de documentar e compartilhar esse conhecimento, deve moldar a forma como o monitoramento é concebido desde o início", disse Culler ao g1.
Estima-se que o Ártico abrigue cerca de 4 milhões de pessoas, sendo aproximadamente 500 mil indígenas, como Inuit, Sami e Yupik, que vivem permanentemente na região.
Localização da Islândia.
Gui Sousa/Arte g1
E o Ártico vive um momento paradoxal: nunca foi tão disputado e nunca esteve tão pouco monitorado.
Com o derretimento do gelo, rotas marítimas antes bloqueadas tornaram-se navegáveis, e países como Rússia, Estados Unidos, Canadá e nações nórdicas passaram a competir por influência e recursos na região.
É um cenário em que a cooperação internacional tem sido difícil.
Mas as autoras enxergam uma brecha. Doenças e espécies invasoras não param na fronteira, um mosquito que se estabelece em território russo pode chegar à Noruega na temporada seguinte.
Esse risco compartilhado, argumentam Koltz e Culler, pode ser exatamente o que aproxima países que não conseguem sentar à mesa por outros motivos.
"Os mosquitos na Islândia são mais do que uma curiosidade ou um incômodo futuro. Eles são um aviso…", disseram as autoras no editorial.
Há quem já trabalhe nessa direção. Um grupo ligado ao Conselho do Ártico, formado por especialistas em conservação da fauna e flora da região, passou anos elaborando recomendações para um sistema coordenado de vigilância de espécies.
As diretrizes existem. O que ainda falta, dizem as autoras, é que os países se comprometam a colocá-las em prática de verdade, com coleta contínua de dados, equipes locais treinadas e informações que possam ser comparadas entre nações.
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