Antes do filme 'Odisseia': manuscritos raros no Rio guardam tradução da 'Ilíada' e tradução de 'Prometeu Acorrentado' feita por Dom Pedro II
25/07/2026
(Foto: Reprodução) Além da Odisseia: conheça traduções de obras gregas feitas na época do Império no Rio
Muito antes de a "Odisseia" de Christopher Nolan estrear nos cinemas cariocas, personagens como Odisseu, Aquiles e Prometeu estavam adormecidos nos arquivos do Rio, décadas depois de circular entre membros da realeza na época do Império.
Traduções manuscritas de obras como a "Ilíada" e "Prometeu Acorrentado", produzidas no século XIX estão guardados ou já passaram por instituições como a Biblioteca Nacional, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e o Museu Imperial de Petrópolis. Entre os textos estão traduções de autoria de Dom Pedro II (1825 - 1891) de próprio punho - como no caso de "Prometeu".
As obras mostram o interessedo meio intelectual e da corte imperial na época nos clássicos da literatura da Grécia antiga - onda que parece ter voltado com o filme de Nolan, que tem tido bom desempenho nos cinemas do Brasil.
Entre os achados mais recentes está um manuscrito traduzido do Canto XIII da Ilíada - obra de Homero anterior à Odisseia - que é mantido na Biblioteca Nacional. Ele foi escrito pelo frei José de Santa Maria Amaral, que foi professor de Filosofia das princesas Leopoldina e Isabel, filhas de D. Pedro II.
Ele também foi o "descobridor" e protetor intelectual de Ramiz Galvão — o mesmo Ramiz que décadas depois doaria o manuscrito da tradução da Ilíada à Biblioteca Nacional.
Trecho de manuscrito da Ilíada encontrado na Biblioteca Nacional e obra "A Fúria de Aquiles" de Giovanni Battista Tiepoloo
Arquivo/Biblioteca Nacional e Wikimedia Commons
🔎A “Ilíada”, composta oralmente pelo poeta grego Homero entre os séculos VIII e IX a.C., narra um recorte da guerra de Troia durante o qual o herói Aquiles abandona e retorna ao conflito, interagindo com personagens como Odisseu, Agamenon, Heitor e os deuses. “Prometeu acorrentado”, do dramaturgo Ésquilo, escrita entre 462 e 450 a.C., narra o castigo imposto pelo deus Zeus a Prometeu, um titã que roubou o fogo sagrado do Monte Olimpo e o entregou à humanidade. A "Odisseia", também de Homero, do final do século VIII a.C., conta as aventuras de Odisseu (Ulisses) na volta à Grécia durante 10 anos após o fim da guerra de Troia.
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Pesquisas e redescobertas
Os manuscritos são do século XIX e ficaram guardados sem alarde por décadas até serem reencontrados em trabalhos de pesquisadores.
Ricardo Neves dos Santos, pesquisador da área de recepção dos clássicos pela Universidade de São Paulo (USP), se deparou com a "Ilíada" do frei quando pesquisava a versão que D. Pedro II fez de "Prometeu Acorrentado"
"Essa tradução do Prometeu Acorrentado ficou por muito tempo esquecida no arquivo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, aí do Rio e nunca tinha sido publicada em livro. Então eu transcrevi completamente essa tradução em prosa do Prometeu e foi publicado em livro lá em 2023", conta.
"E quando eu estava pesquisando documentos relacionados a isso, eu cheguei a essa tradução de uma pessoa que fazia parte também do círculo de amizade do Dom Pedro II, o Frei José de Santa Maria Amaral", lembra.
O frei também era reitor do Colégio Pedro II e Inspetor-geral da Instrução Pública em 1869. Ele também foi o "descobridor" e protetor intelectual de Ramiz Galvão — médico, professor, reitor, filólogo, biógrafo e orador que décadas depois doaria o manuscrito da tradução da Ilíada à Biblioteca Nacional.
Outra tradução manuscrita muito citada pelos pesquisadores é um manuscrito de uma versão integral da "Ilíada" feita por Odorico Mendes que já ficou guardado no Museu Imperial de Petrópolis - acredita-se que o manuscrito também tenha sido estudado por D. Pedro II. Atualmente, segundo o museu, a obra não se encontra lá.
Odorico é considerado o "patriarca" da tradução de clássicos no Brasil e fez a primeira tradução integral da epopeia de Homero para a língua portuguesa.
Gramática e a "Odisseia perdida" de D. Pedro II
Tradução de 'Prometeu acorrentada' feita por Dom Pedro II (D). No Centro, a obra 'Prometeu carregando fogo', de Jan Cossiers
Reprodução/Wikimedia commons/Reprodução
O interesse de D. Pedro II por clássicos da mitologia grega era tão grande que, segundo Ricardo, ele chegou a escrever uma gramática de língua grega - documento ao qual Ricardo afirma ter tido acesso recentemente. Até o fim da vida, Dom Pedro se dedicou a traduções não apenas de clássicos gregos, mas também de "As Mil e uma noites", coletânea de contos e fábulas orientais, com origens nas tradições persa, indiana e árabe.
D. Pedro II foi deposto pela Proclamação da República em 15 de novembro de 1889, e a família imperial recebeu ordem de deixar o Brasil em poucos dias, embarcando para o exílio já em 17 de novembro daquele ano.
Ele passou a viver primeiro em Portugal, com estadias em cidades como Lisboa e Porto — onde morreu sua esposa, a imperatriz Teresa Cristina, logo nos primeiros meses do exílio — e depois circulou por diferentes cidades da França, como Cannes, Versalhes, Baden-Baden e Vichy. Fixou-se por fim em Paris, no Hotel Bedford, onde viveu seus últimos anos dedicado à leitura, aos estudos de línguas antigas e a traduções.
Uma das obras desse período do "imperador tradutor" é justamente a "Odisseia", a mesma história que ganhou uma adaptação cinematográfica dirigida por Christopher Nolan em 2026. Porém, este documento, citado várias vezes nos diários de Dom Pedro - a última vez cerca de 11 meses antes de sua morte, em 1891 - nunca foi encontrado.
"Eu acho que quando um pesquisador encontrar isso vai ser um um grande achado. Ele registra no diário e ninguém encontrou ainda", lamenta Ricardo.
Matt Damon caracterizado como o personagem Ulisses em "A Odisseia"
Reprodução