A viagem gelada da vacina: como calor, enchentes e apagões ameaçam cada dose de imunizantes no Brasil

  • 06/09/2026
(Foto: Reprodução)
André Rocha Uma dose de vacina é aplicada em segundos, mas chega ao braço no fim de uma viagem longa e gelada. Da fábrica ao posto de saúde, ela cruza parte do país sem que o frio escape em nenhum ponto do caminho —é essa temperatura constante que a mantém capaz de proteger. O trajeto tem nome: rede de frio. Uma engrenagem de câmaras, caminhões e geladeiras que entrega a vacina tão forte quanto ela saiu da linha de produção. E que, num planeta mais quente e imprevisível, passou a enfrentar um adversário à altura: calor, enchentes e quedas de energia, cada um pressionando a seu jeito a estrutura que mantém os imunizantes vivos. Uma vacina não pode esquentar Antes de chegar ao posto, a dose descansa em câmaras frias do tamanho de galpões, embarca em caminhões refrigerados e espera em geladeiras especiais nas unidades de saúde —sempre entre 2 e 8 graus. Paulo Ernesto Gewehr Filho, representante da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) no Rio Grande do Sul, resume o porquê de tanto cuidado. "A rede de frio é o sistema que armazena e transporta as vacinas até os pontos de aplicação sem que elas percam potência, eficácia e segurança. São produtos termolábeis: precisam de uma faixa de temperatura definida para preservar as características que tinham ao sair da fábrica", explica o médico. Fora dessa faixa, algo invisível começa a acontecer: as proteínas que formam o imunizante se modificam, e a dose pode simplesmente parar de proteger. "A vacina pode perder o efeito de proteção e, em alguns casos, aumentar o risco de reações", diz Gewehr. Nem toda dose que passou do ponto vai para o lixo —ela é separada e investigada, num episódio que ganhou até nome técnico, "excursão de temperatura", para decidir, pelo tempo e pelo calor a que ficou exposta, se ainda serve. Bernardo Portella O mesmo fenômeno, efeitos opostos O que complica a vida de quem cuida das vacinas é que o El Niño não repete a mesma receita em todo lugar. Segundo a nota técnica do Ministério da Saúde, apoiada em dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e de outros órgãos, o fenômeno deve encharcar parte do Norte e do Nordeste, com risco de enchentes na Amazônia, e ao mesmo tempo secar o Sul e o Sudeste, com estiagem, queimadas e ondas de calor. No meio disso, uma constante: quase o país inteiro mais quente que o normal —e é o calor que mais tira o sono de quem guarda as doses. “Quanto mais quente o ambiente, mais o equipamento precisa trabalhar para manter a temperatura entre 2°C e 8°C. Se houver falta de energia e o sistema parar, a temperatura interna sobe mais rapidamente, especialmente quando está muito quente do lado de fora”, diz Gewehr. A seca traz seu próprio problema: no Norte, onde muitas comunidades só recebem carga por barco, rios rasos podem deixar postos sem reforço de estoque por semanas. A lição de Porto Alegre O El Niño provocou enchentes e deslizamentos no sul do Brasil em 2024 Florian Plaucheur/AFP via Getty Images Nenhum episódio recente escancarou essa fragilidade como a enchente que tomou o Rio Grande do Sul em 2024. Postos submersos, campanhas paradas e doses perdidas deram a dimensão do que acontece quando a água chega às geladeiras. Juarez Cunha, infectologista e diretor da SBIm, acompanhou o efeito em cadeia: com boa cobertura antes do desastre, o estrago é menor; o buraco aparece quando uma unidade fica alagada ou fechada por semanas, e a perda de doses, a campanha interrompida e a queda de cobertura chegam todas de uma vez. A saída, ali, foi correr atrás das pessoas. “A campanha de vacinação contra a gripe estava em andamento, então as equipes foram até os abrigos e vacinaram as pessoas no próprio local”, conta o infectologista. Durante o próprio desastre, sociedades médicas reuniram num documento os riscos de doenças ligadas às enchentes. A experiência reforçou o que os dois especialistas repetem: a hora de preparar a rede é antes da tragédia, não durante. O clima muda, e as doenças também El Niño continua a ganhar intensidade e pode durar até fevereiro de 2027, alerta ONU Reprodução Há um segundo efeito: o mesmo evento que atrapalha a vacinação costuma dar fôlego a algumas doenças. Depois de uma enchente, a água contaminada favorece a hepatite A e as infecções intestinais, e a leptospirose tende a crescer nas semanas seguintes —para essa, aliás, não existe vacina humana. Quando o calor volta, os mosquitos se multiplicam e alargam o território da dengue, da zika, da chikungunya e da febre amarela. Nos abrigos lotados, gripe, Covid-19 e sarampo circulam com facilidade. Não é um enredo só brasileiro. A Gavi, aliança internacional de imunização, lembra que o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) já classificou a vacina como uma ferramenta de adaptação ao clima —e que, de 375 doenças infecciosas analisadas, 218 podem piorar com o aquecimento. Para Cunha, o retrocesso deixa de ser hipótese quando as metas de cobertura não são atingidas. "É o que se vê agora com o sarampo, que voltou a crescer no Brasil e no mundo”. Quem sente primeiro O baque não chega igual para todo mundo. Crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças crônicas já partem de uma vulnerabilidade maior e sentem antes qualquer interrupção. Somam-se a eles os que trabalham no resgate —bombeiros, defesa civil e voluntários—, expostos a ferimentos, contato com animais e água suja, o que aumenta o risco de tétano, raiva e hepatite A. E há o recorte social. "Todos são afetados, mas as populações mais vulneráveis sentem muito mais —não só pela interrupção do atendimento, mas por perderem a casa e os cuidados que mantinham", diz Gewehr. “Quem tem menos saneamento e menos infraestrutura enfrenta, de uma vez, o evento climático e a falta de uma rede de apoio.” Plano para blindar a rede Diante disso, o Ministério da Saúde reuniu em um documento o que estados e municípios precisam fazer: geradores em dia, sensores medindo a temperatura o tempo todo, rotas alternativas de transporte e locais de reserva já cadastrados para receber as doses caso uma central saia do ar. Há até um limite que funciona como alarme: quando o termômetro do equipamento se aproxima dos 7 graus, a equipe precisa começar a transferência. Gewehr explica a lógica desse número. "O alerta em 7 graus existe para dar tempo de organizar a transferência antes que a dose chegue aos 8. Enquanto está entre 2 e 8 graus, a vacina mantém segurança e eficácia plenas", afirma. Ele aprova as medidas, mas faz uma ressalva: geladeiras capazes de aguentar apagões longos ainda não existem em todos os municípios, o que torna o plano de cada cidade indispensável. As orientações fazem parte de uma estratégia maior, o AdaptaSUS —o plano do setor de saúde para se adaptar à mudança do clima. Ainda assim, Cunha lembra que proteger a geladeira resolve só uma parte. "Proteger a rede de frio é fundamental, mas não basta. O planejamento precisa abranger o acesso à saúde como um todo", diz. “Profissional que não consegue sair de casa, morador que não chega ao posto, escola fechada —tudo isso entra na conta.” O que dá para fazer agora A receita dos dois especialistas é a mesma: antecipar. E isso vale também para quem recebe a vacina. Manter o calendário em dia, defende Gewehr, é o jeito mais simples de amortecer uma eventual interrupção —quanto mais protegida cada pessoa já estiver, menor o vazio que sobra se um serviço parar por alguns dias. “É um convite a tratar a vacinação como parte de um cuidado que não se adia.” O pano de fundo é uma tendência que a ciência considera difícil de frear no curto prazo: o número de desastres ligados a clima, tempo e água se multiplicou por cinco desde os anos 1970, segundo a Gavi. "O que se indica é que a situação climática só tende a piorar. Não dá para esperar um evento pequeno e fácil de resolver", resume Cunha. Se a previsão se confirmar, a viagem gelada que protege cada dose terá de mostrar, a cada evento, que aprende mais rápido do que o clima muda.

FONTE: https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/09/06/a-viagem-gelada-da-vacina-como-calor-enchentes-e-apagoes-ameacam-cada-dose-de-imunizantes-no-brasil.ghtml


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